
-Mamãe, essa minha vida é real ?!
Foi a pergunta que ouvi do meu pequeno filho, então com quase sete anos de idade, quando voltávamos da escola. Era um fim de tarde frio e chuvoso. Estávamos num trânsito típico de cidade grande, num vai-e-pára interminável anunciando que a jornada para casa seria longa e demorada! Eu dirigia absorta em pensamentos cotidianos, como o que fazer para o jantar, quando pagar as contas do mês, anotar o dia da reunião de pais na agenda da escola, etc. quando uma vozinha doce e infantil, vinda do banco de trás, surpreendeu-me com tão inesperada pergunta! Pelo espelho retrovisor, vi meu pequeno interlocutor sentado do lado direito do carro, bem próximo da janela. O garotinho de uniforme escolar azul-marinho-escuro e boné, também azul-marinho-escuro, quase caindo-lhe da cabeça, olhava distraidamente para a chuva, cujos pingos formavam linhas paralelas e oblíquas no lado de fora do vidro. Por ser muito curioso, eu sempre achei que algum dia ele me viria perguntar o porquê dos pingos formarem semelhante padrão geométrico nas janelas laterais do carro, quando este se movia na chuva. Sinceramente falando, seria muito mais fácil de responder, já que existem leis físicas que explicam satisfatoriamente este tipo de efeito.
Curiosa e sem saber se havia escutado direito, pedi-lhe para repetir a pergunta.
Sem delongas e ainda olhando distraidamente pela janela, como que realmente encantado com a fina chuva que caía lá fora, meu filho simplesmente repetiu-me a mesmíssima pergunta com toda a desenvoltura do mundo:
– Mamãe, essa minha vida é real ?
“- Mas que papo de louco é esse, meu Deus do céu?”, pensei comigo mesma! “- Com quem será que esse menino anda conversando?”.
Mesmo sem ter a mínima ideia da resposta, levei a pergunta à sério, pois parecia ser algo relevante para aquela criança. Como eu ainda não tinha plena certeza, se meu filho realmente tinha alguma noção do que me estava perguntando, pois ele bem poderia ter ouvido alguma conversa a esse respeito em algum lugar qualquer e simplesmente resolvido tocar no assunto comigo, insisti na pergunta de maneira um pouco mais cautelosa:
-Perdão, filhinho, mas a mamãe não está conseguindo entender muito bem você … será que você poderia explicar, melhor, a sua dúvida… novamente?
Perplexa, recebi a seguinte resposta:

– Mamãe, é que nem no joguinho de vídeo-game (palavras de uma criança). Quando eu mexo o bonequinho (aqui, ele se referia a um personagem dos jogos de vídeo-game, cujos movimentos eram comandados eletronicamente, através do joystick), é como se o bonequinho fizesse tudo sozinho (talvez quisesse dizer que o personagem agia por vontade própria), mas o bonequinho não faz nada sozinho. Sou eu quem faz ele fazer o que faz. Então… será que o que eu faço, sou eu mesmo que faço ? Será que eu também não sou um bonequinho de alguém ?
-Como assim, filho, bonequinho de quem ?
-De Deus, mamãe ! Será que eu também não sou um bonequinho de Deus ?
Percebi então a complexidade da pergunta. Do jeitinho dele, meu filho estava tentando colocar em questão a existência, ou não, do livre-arbítrio em nossas vidas. Fiquei perplexa com tamanha capacidade de abstração para uma criança de apenas seis anos e meio, de idade, mas ainda assim perguntei-lhe incrédula:
-Você tem conversado com algum adulto a esse respeito, meu filho ? Alguma coisa o preocupa ?
-Não, mamãe, sou eu sozinho, que penso nisso. É que, às vezes, eu sou mau (creio que ele tenha querido referir-se aos momentos em que possivelmente tenha brigado com alguma criança, ou feito algo desaprovado por algum adulto, ou qualquer outra coisa do tipo), mas talvez eu não seja mau, talvez alguém me faça fazer essas coisas…
Sim, o livre arbítrio, tema tão espinhoso para mim e do qual sempre me esquivei por me impor severas confrontações às minhas mais profundas convicções, fora-me devidamente posto justamente pelo meu próprio filho !
“-E agora, como saio desta ?”, pensei.
Resposta: “-Não saio !”
Diante de uma pergunta tão genuína e sincera, eu tinha que tentar ser ao menos tão sincera, o quanto! E após momentos intermináveis de uma profunda e sofrida reflexão, só o que eu consegui dizer-lhe foi:
-Filho, neste momento a mamãe não sabe muito bem como esclarecer essa sua dúvida, mas a mamãe promete que vai procurar entender melhor o assunto e vai tentar encontrar alguma resposta para você. Pode ser? Você pode esperar, um pouco?
“-Tá bom, mamãe !”, respondeu-me obediente.
Onze anos se passaram e hoje me vejo tentando retomar o assunto iniciado há tanto tempo atrás, naquela intrigante conversa que tive com meu filho durante o caminho de volta para a casa! Não que eu tenha encontrado a resposta. Muito pelo contrário ! Apesar de ler bastante, a respeito, e de ter conversado com várias pessoas na busca incessante por algo esclarecedor, realmente não encontrei nada muito satisfatório, para dizer a verdade.
Felizmente, aquele menino outrora tão curioso e perspicaz, agora já um moço, nem se lembra mais da pergunta que me fez. Hoje ele é um adolescente típico com preocupações típicas de um adolescente: conclusão do ensino médio, escolha da profissão a seguir, preparação para vestibular, etc… Mas, ainda assim, sinto-me na obrigação de lhe dar algum retorno até pela confiança que ele depositou em mim naquele momento tão singular e especial de sua vida !
Começo pela Bíblia segundo a qual não cai uma única folha de árvore, no chão, que não seja pela vontade de Deus. Como eu estudei em colégio de freiras, portanto com formação fundamentalmente católica, essa era uma das frases que eu mais ouvia no meu dia-a-dia escolar. Minha mãe, por sua vez, era espírita e me dizia que nossas vidas eram previamente planejadas no mundo espiritual antes mesmo de nascermos, ou encarnarmos, como ela costumava dizer. Em ambas as situações, a questão do livre arbítrio torna-se evidente e relevante, pois sempre fica aquela pergunta: até que ponto nossas decisões são realmente nossas, ou são manipuladas por algum um outro ser (um “gamer”, na visão de mundo do meu filho), de cuja influência diária em nossas atitudes e pensamentos sequer suspeitamos?
Maktub é uma palavra árabe que significa “estava escrito”, ou “tinha que acontecer”. Ela é considerada um sinônimo da palavra “destino”, porque expressa alguma coisa que estava predestinada a acontecer. Na cultura árabe, a palavra maktub revela o determinismo, o fatalismo da vida de todo crente no Islamismo que se submete à vontade de Alá, assim como muitos de nós, em sendo cristãos, também nos submetemos à vontade de Deus. Novamente, a questão do livre-arbítrio fica aqui colocada. Sinceramente falando, e aqui vai um desabafo meu, isto soa para mim como uma visão de mundo um tanto quanto paternalista, na qual sempre existe um ser supremo zelando por nossas vidas, tutelando-as, interferindo em nossa realidade! E se for assim, a pergunta do meu filho torna-se totalmente pertinente. Ele, criança, suspeitando estar sendo manipulado por alguma outra entidade dentro desta nossa realidade … e nós, adultos, acreditando e até mesmo desejando que assim realmente o seja.
Se analisarmos a pergunta deste menininho curioso com um pouco mais de profundidade, poderemos nos questionar até mesmo sobre o que viria a ser a nossa própria realidade, por exemplo ! Para quem assistiu ao Matrix, um filme de ficção científica bastante provocador, ou já estudou Mecânica Quântica, uma ciência desenvolvida e constantemente aprimorada por vários, competentes e respeitados cientistas, sabe muito bem que o nível de compreensão de determinados aspectos da realidade que nos cerca foge totalmente do senso comum, dos padrões usuais aos quais estamos acostumados, quando esbarramos nas fronteiras do conhecimento humano pela busca do entendimento maior. O tema é realmente complexo e sempre foi objeto de profundas reflexões desde o tempo dos grandes filósofos gregos, como Platão, por exemplo. E isso há mais de 2400 anos ! Aliás, quem não se lembra da alegoria da caverna, de Platão ? Segundo esta alegoria, certos habitantes viveriam hipoteticamente sempre dentro de uma caverna e sempre de costas para a sua entrada, onde haveria uma fogueira, cuja chama projetaria em suas paredes internas apenas as sombras dos objetos externos à caverna, sendo estas as únicas fontes de informação que os hipotéticos habitantes receberiam do mundo exterior. Para estes habitantes, então, a única realidade que conheceriam, e que provavelmente lhes apareceria como a única e verdadeira realidade existente, seriam as sombras do mundo lá de fora. Mas o mundo, fora da caverna, seria sempre muito mais do que as simples sombras projetadas em seu interior, assim como a nossa própria realidade pode hoje ser, para nós, muito mais do que conseguimos depreender através dos nossos sentidos, ou de todo o conhecimento que tenhamos adquirido até o presente momento.
Tema complexo, esse… não ?!
Ah, meu filho querido, naquela tardezinha fria e chuvosa, você não poderia simplesmente ter me perguntado, como sempre costumava fazer: “-Mamãe, o que vamos ter para o jantar?”.
Brincadeiras à parte, o assunto sem dúvida é bastante intrigante, mas eu acho que a resposta para ele não está neste mundo. Ou … pelo menos não neste mundo, na forma como o conhecemos, ou pensamos que conhecemos. Eu acredito que nós ainda sejamos seres bastante limitados, dentro de um longo processo de aprendizado e evolução, chamado vida, e que… se possuímos algum tipo de livre-arbítrio, muito provavelmente este livre-arbítrio deve estar diretamente relacionado à nossa capacidade de compreensão das consequências dos nossos atos provocados nesta nossa realidade, e na dos outros, seja ela qual for, mediante as escolhas que fazemos. Ou seja, podemos tomar decisões em nossas próprias vidas, mas provavelmente não devem ser decisões totalmente livres e quaisquer. Se nossa vida é realmente planejada em algum nível superior antes de nascermos (hipótese), provavelmente ela deve respeitar algumas condições de contorno muito bem definidas, como numa espécie mesmo de jogo, com suas regras próprias. Você executa essa, ou aquela ação, dentro do jogo, mas sempre dentro de parâmetros previamente estabelecidos, ou seja, seguindo as regras do jogo. Dentro deste ponto de vista então, meu filho, caso você esteja lendo este texto, a alegoria do vídeo-game como pano de fundo para a nossa vida existencial poderia até ser verdadeira para algumas situações, o que também nos levaria a pensar que a nossa liberdade de escolha poderia ser, de uma certa forma, um tanto quanto ilusória. Aliás, há quem diga que tudo nesta vida é ilusão. Até a própria ilusão é uma ilusão. Nós não passamos de simples sombras das realidades dos outros e que a resposta para tudo estaria lá fora, e fora, portanto, de qualquer possibilidade de entendimento nosso, se considerarmos o estágio de evolução ainda precário, ou níveis de consciência ainda limitados em que nos encontramos!
Será, mesmo ?!
Eu gostaria de discorrer mais sobre este tema tão instigante, mas sinto que está na hora de deixar a continuação destas reflexões por conta do querido leitor, da querida leitora.
Encerro esta comunicação com a seguinte pergunta:
– Sou realmente eu, quem está decidindo parar por aqui, neste exato momento, ou seria alguém tomando esta decisão por mim?!
GAME OVER
____________________________ FIM ________________________________