Vejo uma criança dormindo numa caminha simples em pequeno quarto de uma casa modesta de poucos cômodos. Seu companheiro… apenas um afetuoso gatinho.
Menina de cabelos castanhos claros, traços delicados e muito pequena para estar ali, naquelas condições, tendo como única companhia seu animalzinho de estimação…
Não entendo muito bem, mas o lugar me parece familiar. A criança, também…
Sinto-me confusa, como se estivesse vivendo um sonho embaçado…
A noite segue fria, lá fora. Céu estrelado…
Persistentes raios de luz de uma linda lua cheia atravessam largas frestas de uma velha janela de madeira, há tempos precisando de ser reparada, e iluminam alguns pontos isolados, aqui e acolá, no interior daquele quarto humilde, permitindo vislumbrar a simplicidade das acomodações, assim como também o semblante sereno e algo feliz daquela criança que aparentemente desfruta de bons sonhos…
Deixo-me levar pela cena envolvente em extremo silêncio e por longo tempo, de pé, próxima da porta, procurando não incomodar…
Discretamente observo o entorno com vagar, na procura por adultos que talvez pudessem estar na casa, mas não vejo ninguém!
Onde estariam eles?
Preocupada, penso que esta criancinha realmente não deveria estar aqui, tão sozinha… O único adulto, por perto, sou eu. E nem mesmo eu sei como vim parar aqui!
Tento me lembrar do que eu estava fazendo, momentos antes de mergulhar em tão inusitada experiência… e dou comigo mesma, deitada na minha cama, prostrada, em repouso absoluto, devida a uma lesão que sofri na coluna vertebral.
Estaria eu sonhando, então?!
Oh… não! Isso não! Eu realmente estou neste quartinho humilde, tão acolhedor e graciosamente iluminado pela luz do luar!
O que acontece, afinal?!
Ainda confusa, volto o meu olhar para aquela doce criança em sono profundo, tentando entender o que se sucede. Mas, para a minha surpresa, ela agora está acordada! Eu devo ter feito alguma coisa que a despertou!
A menina está sentadinha na cama, brincando com seu gatinho, ao mesmo tempo em que me observa, rindo-se do meu indisfarçável constrangimento.
Ela não demonstrou nenhuma surpresa diante de mim! Parecia até já me conhecer! Parecia saber que eu viria….
Em suas mãozinhas delicadas, um pequeno pedaço de papel, meio amaçado, que ela displicentemente me oferece. Parece um bilhete… Seria um recado de alguém?!
Aproximo-me da menina meio desconfiada e sinto uma grande familiaridade em seu sorriso, em seu olhar, em seu agir… e não é só isso! Esse quarto… não é um quarto qualquer! Reconheço este quarto! É o meu antigo quarto!
Reconheço esta cena! Eu já vivi isso!
Céus! Essa criança! Sou eu!!!!
Quando pequena, meus Deus, há quanto tempo atrás, sonhei que uma mulher adulta me observava dormir. Parecia estar angustiada, talvez precisando de algum tipo de auxílio que eu, criança, não sabia muito bem como lhe oferecer! Eu tinha em mãos um pedaço de papel com algo escrito nele, e que simplesmente lhe entreguei. Eu não sabia ler. Desconhecia o conteúdo do texto, mas sabia que tinha que entregar aquele pedaço de papel para aquela mulher… para mim!
Que bizarro!
Eu sou aquela mulher aparentemente sonhando com esta criança que, pelo jeito, já vinha esperando por mim, sei lá eu, desde quando…
Meu lado cientista aponta inconsistências entre tempo e espaço vividos por mim neste presente momento, mas que meu lado pessoa ansiosa simplesmente ignora…
Apressadamente pego o pedaço de papel da menina com as minhas mãos trêmulas, indisfarçável assombro e muita curiosidade!
Leio atentamente o conteúdo escrito no bilhete e percebo que se trata de uma oração! Uma linda oração! Talvez, quem sabe, um delicado recado de Deus, e que só poderia ter-me sido entregue pelas mãos mesmo de uma criança…
Sim, a Oração!
De que outro meio poderíamos nos servir para nos conectarmos diretamente com Nosso Senhor? Principalmente quando nos encontramos em momentos de grande dor, ou desespero?
Profundamente tocada, observo aquela menininha feliz e confiante, que um dia eu fui…
Seus olhos brilhantes e seu meigo sorriso me confortam.
Estou em paz!
Nós realmente não sabemos a grande força interior que trazemos conosco, quando dela de fato precisamos! Essa força, talvez divina, que nos acompanha sempre, desde o nosso nascimento, e que carregamos por toda a nossa vida!
E que hora mais oportuna, para receber tão linda mensagem! Um delicado recado, quem sabe, realmente vindo de Deus e que eu alegremente compartilho com você, aqui, meu leitor amigo, minha leitora amiga!
Oremos!
ORAÇÃO DOS BONS ESPÍRITOS
Se por vezes há em que duvidamos dos caminhos que nos são tão carinhosamente oferecidos nesta linda jornada de aprendizado, que se chama vida, é por que talvez ainda nos falte fé, para segui-los adiante!
E se apesar dos nossos sinceros e devotados esforços, ainda não alcançamos a graça de podermos enxergar-vos com os olhos do corpo físico, Senhor, concedei-nos ao menos a condição de podermos sentir-vos em nossos corações!
Se é verdade que a Razão Humana muitas vezes se nos apresenta como instrumento inestimável e eficaz na busca do conhecimento maior, também é verdade que esta mesma Razão Humana por vezes se nos interpõe como obstáculo intransponível perante vós, Senhor, distanciando habilmente os mais incrédulos do concurso espontâneo!
Mas, se assim procede, é porque talvez não seja a Razão Humana o caminho natural, através do qual possamos chegar até vós, Senhor, mas, sim, e tão mais simplesmente através do AMOR!
Assim como a pequena criança, que recebe com alegria e simplicidade o carinho e a proteção da carinhosa mãe sem a necessidade de questionamentos maiores sobre seu real motivo para tamanho amor e dedicação, sejamos nós também capazes de vos recebermos em nossos corações com a mesma simplicidade e ternura de uma criança, Senhor, até porque, nesta longa jornada de aprendizado e louvor em que sinceramente desejamos alcançar algum entendimento sobre vós, também nós nos encontramos ensaiando nossos primeiros passos.
Amém!
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____________________________ FIM ________________________________