Será que temos mesmo o direito de errar?

Era tarde da noite.

O sono não vinha.

Eu estava muito triste por um motivo específico e muito recorrente na minha vida.

Simplesmente não conseguia dormir e meu coração parecia querer explodir…

Angustiada, orei a Deus de modo bastante sincero e perguntei-lhe, em lágrimas, o porquê de tanta violência neste nosso mundo.

Perguntei-lhe muito diretamente:

 – Por que tantas guerras, senhor meu Deus? Por que determinadas pessoas se arrogam o poder de causarem tantas mortes, nos mais diversos lugares e de forma tão impune? 

Resposta que me foi intuída:

 –Todos têm o direito de errar.

Surpresa com a resposta, retruquei, inconformada:

 – Mas é justo alguém errar provocando o sofrimento num outro ser humano, no caso, pessoas aleatórias numa triste condição de guerra, por exemplo? Onde ficam os direitos destas vítimas?! É justo estas vítimas se tornarem alvos de erros alheios?

Fiz a pergunta pensando especificamente numa garota de 16 anos, morta há não muito tempo atrás, no Líbano, juntamente com o seu pai, quando voltava rapidamente para casa na tentativa de pegar seu material escolar e alguns outros poucos pertences que por lá ainda estivessem.

Eles fugiam por causa da guerra iniciada entre Israel e o Hamas, na Palestina, que tinha se alastrado também para o Líbano, na tentativa de encontrar algum outro lugar supostamente mais seguro…

Coloquei-me no lugar da mãe, que a tudo assistia, a poucos metros dali…

Faltava-me o ar, tamanho o desespero que eu sentia.

Resposta:

 -Você pressupõe a morte de uma inocente.

ELE, obviamente, sabia que eu estava pensando na menina, quando em oração suplicante por alguma explicação para tamanha tragédia, e continuou com sua resposta: 

 -Se fosse o contrário, se ela estivesse no lugar do agressor e em iguais circunstâncias de interesses e de poder, faria o mesmo, ou pior. 

Surpreendeu-me o tom sereno da voz…

Entendi a resposta com pesar, pois ela sinaliza o quanto nós, seres humanos, ainda estamos muito longe da perfeição e do amor que Cristo nos tentou ensinar!

É claro que eu não tenho o direito de julgar a realidade daquela menina e/ou de seu pai, mortos em tão triste condição de guerra, pois é uma hipótese que só mesmo um ser muito evoluído, para além desta nossa própria existência, teria reais condições de o saber.

Mas ainda assim, e pelo menos esta é a minha opinião, não considero justificável tamanha agressão, com resultado: morte, imposta a estas duas pessoas que estavam simplesmente tentando fugir de uma situação insustentável para muitos.

Sim, todos nós temos o direito de errar, mas… a que preço?

A notória degradação, cada vez mais rápida e eficiente, do nosso planeta…

As redes sociais espalhando informações falsas para iludir, ou, muitas vezes, instigar e/ou acirrar um ódio desnecessário entre pessoas com o claro objetivo de alcançar maior audiência e/ou, assim, atender a interesses escusos daqueles que simplesmente se aprazem por espalhar tanta discórdia pelo mundo…

Políticos servindo-se do poder para manipular seus eleitores sem nenhum compromisso real com a melhoria da qualidade de vida que tanto prometem oferecer…

O crime e a estupidez se institucionalizando cada vez mais em vários órgãos públicos de diversos países…

Meus Deus, será mesmo que temos o direito de errar?

Será mesmo que merecemos esse tal do “livre-arbítrio”, sob o qual fazemos nossas escolhas de vida, aqui, na Terra, mesmo cientes de que em algum momento teremos de arcar com as consequências de todas elas?

Cristo veio ao mundo para nos mostrar o significado do seu verdadeiro amor.

E foi crucificado.

Fico pensando como seria agora, se ele voltasse aqui, novamente…

O que será que fariam com ele ?

Seria tomado por louco e encarcerado em algum lugar ermo qualquer, isolado de tudo e de todos?

Ou será que jogariam mísseis num quarteirão, ou mesmo num bairro inteiro, onde ele supostamente pudesse estar, na certeza de o destruir e, assim, impedir que viesse a oferecer qualquer risco para os poderes ora instituídos?

Obviamente centenas de outras pessoas também morreriam neste tipo de investida, mas quem se importaria com elas, afinal?

Aliás, quanto realmente vale uma vida, hoje, em dia ?

Um celular?

Uma bicicleta?

Um cargo político importante?

Uma disputa de algum jogo de futebol?

etc., etc., etc.

Os espíritas (ainda não é o meu caso, tá?) entendem que todos nós, aqui, na Terra, trazemos conosco diversas experiências de aprendizado, muitas delas realmente desafiadoras e que se justificam por motivos muitas vezes insondáveis para aqueles que observam os fatos de um ponto de vista externo, sem conhecer, a fundo, o contexto atual e o das vidas anteriormente passadas de cada um de nós. E é por essa razão, creio, que não nos cabe julgar as ações de agressores e agredidos, sejam lá em quais circunstâncias se derem.

Mas isto também não significa, pelo menos esta é a minha opinião, que devamos aceitar passivamente o sofrimento como agente lapidador do espírito, pois é simplesmente muito perturbador vermos pessoas serem assassinadas por meras questões de poder, dinheiro, ideologias diversas, ou mesmo por motivos frívolos, como ciúmes, inveja, ou outra besteira qualquer…

Gente!

Estamos no século XXI !

Não é mais possível viver assim!

Eu sei que não é fácil, mas devemos insistir no amor ao próximo, na tolerância, no diálogo e no respeito ao meio ambiente, se quisermos que a espécie humana sobreviva para mais de algumas eras!

E o que mais me desespera, neste momento, é que nós ainda temos os meios e as condições de fazermos escolhas mais acertadas para um vida melhor e mais justa para todos!

Porém não as fazemos!

E o tempo urge!

Não descarto a possibilidade de esta suposta conversa que tive com Deus, ou com algum outro espírito mais evoluído, não ter passado de uma simples elucubração da minha mente na tentativa de criar uma narrativa qualquer que acomodasse, naquela noite, e pelo menos em parte, tantas aflições que realmente estavam tomando conta da minha alma de modo crescente e descontrolado.

Juro que me senti à beira de um infarto, naqueles tristes momentos que se antecederam à minha oração!

Mas, ainda assim, a reflexão é válida e algo necessária!

Neste meu presente desabafo, surge-me a imagem de um beduíno num deserto distante…

Exausto e já sem forças para continuar a sua caminhada, ele se arrasta pelas areias do deserto na tentativa de alcançar um velho e conhecido poço d’água, resguardado numa espécie de oásis …

Sua sede é atormentante.

Aproxima-se num ímpeto desesperado de tentar bebericar o que parece ser um pouco de água que ele vislumbra dentro daquele poço, apesar de sua visão já estar muito turva por causa do sol escaldante que lhe queima até a própria alma. Para seu maior desespero, o pobre homem consegue engolir apenas um punhado de areia, ao mesmo tempo em que escuta uma voz severa e impassível, a adverti-lo:

-Por várias vezes chegastes sedento e este poço e sentistes a água fresca e abundante saciar-te a sede e refrescar-te o rosto. Brincastes com a água deixando-a escorrer entre teus dedos, mas nunca cuidastes do poço…

Penso, aqui, que a água abundante bem poderia estar representada pela infinidade de boas escolhas que ainda temos condições de fazer para nossa vida presente. Com pena do que eventualmente nos possa aguardar, num futuro talvez não muito distante, creio que não seria prudente desperdiçá-la, neste momento…

___________________________    FIM    _________________________________

8 respostas para ‘Será que temos mesmo o direito de errar?

    1. Querida Kenya, as vezes me pergunto se alguma coisa mudou desde o que se conhece por humanidade até os dias atuais…isso me faz pensar na bondade de Deus, que enviou o seu filho pois contudo, Ele ainda acha que nós valemos à pena!

      Obrigada pelo texto!

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  1. Querida Kenya, suas palavras realmente nos faz refletir! Concordo com o Emerson. Sempre uma boa leitura! Mesmo para evangélicos como eu que creem que só temos 1 vida o livre arbítrio é difícil de compreender. É fácil pensar no direito de errar quando pensamos numa nota ruim na escola, eu mesmo ja me peguei pensando assim: nossos filhos têm o direito de errar, mas quando o erro é uma situação onde prejudica uma pessoa ou tira a vida de alguém como no texto, é realmente um desafio! Um grande beijo, Julienne

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    1. Sim, minha amiga do coração!

      E que grande desafio, esse nosso, o de aprendermos a lidar com o livre-arbítrio de modo coerente e justo!
      A boa notícia é que sempre podemos utilizá-lo a favor da própria humanidade, na medida em que optamos por praticar o bem!
      É sempre possível e não custa nada tentar!

      Beijo grande e obrigada por sua doce visita!

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  2. Olá Kenya! Saudades!

    Sempre temos escolhas, às vezes, erramos com elas, mas, podemos consertá-las, mesmo que seja um caminho longo.

    Adorei a leitura, beijos.

    Cristiane Lopes

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    1. Cris, meu anjo, obrigada pela sua doce visita!
      Precisamos de tomar um café!!!
      Saudades também!

      E, sim, sempre temos escolhas. E errar é humano.
      O objetivo deste texto foi mesmo o de sugerir uma reflexão sobre o assunto.
      Adoro encontrá-la aqui. Sabia?
      Incentiva-me a continuar escrevendo!

      Beijos !!!!

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...