O Sempre Difícil Desapego!

– Não tinha percebido a sua presença… faz tempo que você está aqui?

– Sim, mas não quero incomodar.

– Você nunca incomoda! Além do mais, para variar, estou angustiada e perdida, em meio a pensamentos perturbadores, e gostaria mesmo de conversar com alguém…

– Eu sei, por isto estou aqui. Mas não fique tão triste, assim, pela sua plantinha! Ela só está encerrando o ciclo dela!

– Você gosta mesmo de habitar meus pensamentos, não é mesmo? Até já sabe do que se trata…

– Na verdade, seus pensamentos também me alcançam, quando você ora aos bons espíritos pedindo por auxílio esclarecedor.

– Tem razão! Eu orei, mesmo, pedindo para alguém me ajudar a abrandar meu coração sobre um tema que muito me aflige: a perda. Aquela plantinha delicada que está logo ali, em frente à janela, por exemplo, está secando lentamente. Vê? Já fiz de tudo para salvá-la: troquei de vaso, mudei-a de lugar várias vezes, para que pudesse “pegar” mais sol, procuro manter a terra sempre adubada e rego a plantinha cuidadosamente sempre que necessário. Mas nada parece funcionar. Ela está murchando aos poucos, como que se despedindo vagarosamente de mim. Sinto que é a vida, insistindo em me ensinar sobre o tempo, e eu, resistindo em aprender. Entre folhas amareladas e raízes cansadas, lembrei-me do que a minha querida mãe me costumava dizer: “– Tudo passa, na vida!“. E como passa! Ela mesma já se foi, há oito anos atrás… E estou muito triste por causa disso.

– Entendo perfeitamente o que você sente, mas sua mãe não “passou”! Ela apenas se encontra em outro nível de existência que por enquanto ainda não lhe é possível alcançar. Mas vocês se reencontrarão. Creia-me! Uma das principais fontes do sofrimento humano, e grande obstáculo para o seu crescimento interior é o apego que se costuma sentir em relação a pessoas, coisas, convicções, emoções, ou riquezas materiais. Ao se apegar, o ser humano cria expectativas e ilusões de permanência em um mundo de impermanência, que no Budismo é chamado de “anicca”. E você ainda é muito apegada à sua mãe, o que lhe impede de viver com a leveza desejada. Para Buda, aproveitando que você está entrando em contato com esta filosofia de vida através da prática do Tai-Chi-Chuan, o desejo e o apego eram as causas fundamentais do sofrimento humano, “dukkha”. A doutrina espírita também enxerga o apego desta forma. Não por acaso, o esforço em se trabalhar o desapego nos seres humanos está no coração de ambos os ensinamentos.

– Mas você não perde nada da minha vida, mesmo, né? Até nas minhas aulas de Tai-Chi-Chuan, você já foi xeretar? Privacidade é bom e eu gosto! Sabe disto?! Mas voltando à questão que o trouxe aqui, não é à toda hora, que lamento a morte da minha querida mãe. Hoje, particularmente, lembrei-me muito dela porque ela adorava plantas. Tinha um jardim de rosas lindo, quando era viva! E ela também ficava triste, assim como eu, quando alguma florzinha morria…

– Certa vez, você me chamou para contemplar a beleza do Templo Budista e experimentar a paz deste abençoado local, onde você costuma fazer aulas de Tai-Chi. Seu sentimento de gratidão e entusiasmo pelo convívio com os queridos mestres e alunos do Templo, assim como a oportunidade que lhe é colocada de adquirir novos conhecimentos, incentivou-me a presenciar alguns momentos desta sua nova experiência. E fiquei feliz pelos benefícios que a prática do Tai-Chi lhe está trazendo, embora conseguir dominar a sua ansiedade e ímpeto explosivo ainda lhe pareça ser um desafio considerável…

– Eita! Desculpe! Tinha me esquecido de que o havia chamado para conhecer o lugar. Você tem razão! Mas você é xereta, sim, que eu sei…

– Se sou xereta, do modo como afirma tão categoricamente, eu poderia dizer que você também é! Eu poderia, por exemplo, citar várias situações para as quais a sua curiosidade foi muito além do recomendável, como naquela vez em que você…

– Tá, tá, tá… não precisa de continuar! Voltemos ao nosso assunto. Pode ser ?

– Sim. Eu ia dizendo que, ao invés de se lembrar de sua mãe, que ficava triste quando morria uma ou outra flor, procure lembrar-se dela em momentos de alegria, por exemplo, quando uma nova rosa brotava em seu jardim! Um lindo sorriso iluminava-lhe o rosto satisfeito, na certeza de ter realizado um bom trabalho. Ela costumava até cantar, quando regava as plantas, tamanho o carinho que sentia por cada florzinha que havia naquele cantinho de terra tão especial. Lembra-se?

– Realmente! Ela gostava muito de cantar! Nem me lembrava mais disto! Deixe-me adivinhar… você também estava lá. Certo?

– Sim. Acompanho sua família há mais tempo do que o próprio tempo pode contar. E lhe asseguro de que este seu sofrimento pode ser em muito atenuado, se você se libertar do padrão mental que a mantém apegada a alguém que você pensa que perdeu. O sentimento de perda só cabe a quem julga possuir algo, ou alguém. E, no fundo, nós não somos donos de nada, nem de ninguém, tampouco. Apenas usufruímos de algo, ou vivenciamos algo com alguém em determinadas circunstâncias enquanto elas se apresentam como benéficas para a nossa evolução espiritual. A vida terrena, neste ponto de vista, é uma escola onde cada encontro tem hora para começar e hora para terminar. Desapegar é sinal de maturidade espiritual: confiar que o que temporariamente vai embora, ensina, e o que fica, também!

– Mas não é fácil viver com tamanho desprendimento, assim! Saiba!

– Não é fácil, eu sei, mas também não é impossível. E, perceba: o desapego, pregado tanto no budismo, quanto no espiritismo, não é sinônimo de abandono, frieza ou indiferença! Desapegar não é renunciar ao amor, mas, sim, uma forma especial de amar, com liberdade, compreendendo que tudo o que nos cerca é instrumento de aprendizado e não de posse definitiva. É um convite ao amor mais puro, aquele que respeita o fluxo da vida e aceita a impermanência como parte do caminho. O Budismo e o espiritismo nos ensinam a cultivar relações profundas, mas sem nos aprisionarmos um, ao outro. Eles nos ensinam a desfrutar da vida com discernimento e caridade, sem nos deixarmos perder em ilusões. Desapegar, nesse sentido, é confiar. Confiar na vida, no tempo, no espírito e na sabedoria que há em deixar ir. E, voltando para a sua plantinha, talvez ela tenha existido para isto: mostrar-lhe o quão belo e sagrado é o ciclo da vida

___________________________    FIM    _________________________________

2 respostas para ‘O Sempre Difícil Desapego!

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About Kenya, uma simples amiga!

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