Nos meus tempos de ensino médio, vez por outra eu passava pela Praça da Liberdade, de manhã, bem cedinho, quando ia para as minhas aulas de educação física, aos sábados. Era caminho do Colégio São José, onde eu estudava. Um colégio de freiras, só para meninas, que ficava na rua da Glória, em São Paulo. Eu costumava treinar vôlei, nestes dias, e nunca faltava!
E lá estavam eles, na Praça da Liberdade! Também sempre pontuais e dedicados! Aqueles senhorzinhos, e também senhorinhas, em sua maioria orientais, com seus trajes típicos e confortáveis exercitando-se em movimentos lentos e graciosos, como se estivessem desenhando figuras invisíveis, no ar.
– Olha só que bonitinho! – pensava eu, comigo mesma – uma dança suave e elegante para idosos manterem a sua flexibilidade e alguma dignidade, no outono da vida…
Perceba você, já, aqui, o tamanho da minha ignorância!
Diante daquelas figuras serenas e aparentemente felizes, eu genuinamente acreditava tratar-se de uma coreografia zen, um balé contemplativo para pessoas da terceira idade cuidarem da sua saúde e do bom humor; uma atividade muito delicada, quase poética, para quem já tinha deixado as correrias da vida para trás.
Mas, na verdade, eles praticavam o que eu mais tarde vim a conhecer como Tai Chi Chuan: uma arte marcial chinesa que combina movimentos suaves, e lentos, com meditação em movimento.
Ainda assim, no meu imaginário, durante anos alimentei a ideia de que o Tai Chi Chuan seria uma espécie de passatempo zen, uma ginástica contemplativa para quem tinha tempo, e joelhos, de sobra!
Só que não…
E eis que, um dia, resolvi fazer uma aula experimental para conhecer essa arte marcial, de perto!
Não sei exatamente o que me levou até lá. Talvez alguma crise existencial (quem já não a teve?), uma “influencer” bem humorada, sugerindo-me novas formas de sofrer, uma recomendação médica para aprender a lidar com aquela dor crônica, convidada indesejada, que teima em nos acompanhar pela vida… enfim, só sei que, do nada, de repente eu me vi no Templo Zulai, em Cotia, para a minha primeira aula de Tai Chi.
O lugar é lindo e os mestres, assim como todos os alunos de lá, inclusive os de Kung Fu, são muito receptivos e atenciosos. Não tem como não gostar de todos eles e do local! A energia de lá é muito boa e eu super recomendo: https://templozulai.org.br/
Enfim. Lá fui eu para a minha primeira aula de Tai Chi Chuan cheia de boas intenções, e talvez um pouco de arrogância, achando que ia ser uma experiência bem tranquilinha… praticamente um spa, em movimento!
Trazia comigo um espírito quase antropológico, afinal de contas, estava prestes a desvendar os segredos desse elegante passatempo de idosos.
Fácil, né?
Só que não…
E a primeira surpresa foi logo na posição inicial!
Parecia até muito fácil: ao comando do instrutor, que nos dizia, “- Libera”, tínhamos que afastar os pés na largura dos ombros, flexionar suavemente os joelhos, manter o corpo ereto e respirar fundo. Simples, né? Simples… até os músculos das coxas começarem a “gritar” por misericórdia!!!
O que parecia ser um gesto meramente simbólico rapidamente se revelou uma armadilha biomecânica. Em menos de três minutos, minha coxas já começaram a tremer! Pense você, então, executando toda sorte de movimentos, por mais lentos que sejam, e este é o grande desafio, com joelhos sempre semi flexionados. E por duas horas! Isto exige uma força que você nem sonha que tem. E não tem! Mas tem que buscar sabe-se lá, Deus, onde!
E o instrutor, com a calma de um monge zen que já viu muita gente subestimando o Tai Chi, dizendo tranquilamente:
– Mantenham a energia no centro. Relaxem os ombros. Sintam o peso nas pernas. Controlem o fluxo do Chi.
E eu ali, pobre de mim, com o olhar fixo em algum ponto do Templo, tentando manter alguma dignidade e procurando achar o tal do Chi interior, mas encontrando apenas uma vontade danada de fugir correndo daquele lugar!
– Respira, solta, relaxa… – dizia o querido instrutor com a mesma voz de quem ensina passarinho a voar.
E eu tentava, respirava e soltava. Mas, internamente, implorava:
– Mestre, acho que o meu joelho não entendeu essa parte do “relaxa”, não!
A sequência de movimentos eram lentas? Sim.
Fáceis? Não! Com certeza, não!
Uma série de gestos aparentemente simples, bem vagarosos e ondulantes, como se estivessem empurrando o vento, abraçando o vazio e acariciando o invisível… só que o invisível, meus caros, pesa. E muito!
Cada gesto parecia carregar um significado cósmico e uma exigência muscular escondida. Era imprescindível manter equilíbrio, força, concentração e um grau de autocontrole que, até então, eu só conhecia nos livros de filosofia.
E lá estava eu, suando dignamente e com as pernas bambas, enquanto tentava empurrar uma parede invisível que teimava em não sair do lugar!
O instrutor? Este seguia flutuando e sorrindo, leve como uma folha no vento. Eu, no entanto, mais parecia uma beterraba descendo ladeira abaixo.
Enquanto eu lutava para não perder o equilíbrio, aqueles velhinhos da Praça da Liberdade me surgiam na lembrança como mestres ocultos, verdadeiros ninjas disfarçados de aposentados. Por certo qualquer um deles poderia desferir um golpe capaz de me derrubar no chão e ainda ter tempo de comprar verduras na quitanda!
Entre um passo e outro do Tai Chi, percebi que aqueles velhinhos e velhinhas simpáticas, com seus movimentos graciosos, não estavam brincando de ser nuvens flutuantes. Eles estavam, sim, dominando uma arte, e com muita técnica, da qual nós, apressados, talvez já nos tenhamos esquecido: a arte da presença.
E no meio daquela aula, enquanto meu corpo tremia, percebi que o Tai Chi não era uma dança para pessoas aposentadas passarem o tempo, afinal, nem uma brincadeira das manhãs de sábado. Era um treinamento de guerra. Um combate invisível contra a gravidade, contra o ego, contra a pressa da vida moderna.
Mas, naquele desconforto todo e aparentemente sem fim, algo começou a acontecer.
A minha respiração começou a ficar cada vez mais controlada, a cabeça foi se esvaziando e, pela primeira vez, em muito tempo, percebi que estava completamente presente. Ali. Naquele gesto. Naquela respiração. No simples ato de tentar manter-me em pé!
Terminei a aula com a dignidade meio avariada, o orgulho levemente torcido e uma estranha sensação de leveza. Descobri que o Tai Chi Chuan não é só um exercício para o corpo. É um treino para a alma. Um lembrete de que a vida também acontece nos intervalos, nos vazios, no movimentos sutis. E que, às vezes, empurrar o vento dá mais trabalho do que correr atrás dele…
Não se engane, meu querido leitor, minha querida leitora, achando que o Tai Chi vem de uma prática milenar, onde as pessoas executam movimentos lentos, apenas como se estivessem desenhando ondas no ar.
O Tai Chi é luta silenciosa de transformação interior.
Quem entra para o Tai Chi, seguramente é modificado por ele. E para melhor! Não tenho dúvidas disso!
Enfim, apaixonei-me pelo Tai Chi e resolvi trazê-lo para a minha vida! Quem sabe, um dia, eu também me torne uma dessas figuras serenas de alguma praça da vida, com movimentos lentos e o olhar confiante de quem sabe exatamente o tamanho da força que carrega.
O Mi Tuo Fo 🪷
___________________________ FIM _________________________________