Tempo, um presente invisível…

Estava aqui pensando na quantidade de bilionários, e o Epstein foi um deles, que financiam pesquisas científicas com o desejo obsessivo de conseguirem uma nova versão de si mesmos que lhes possibilitem viver mais.

Cito, por exemplo, a inovadora tecnologia de edição genética CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), que poderá viabilizar modificações nas células-tronco de indivíduos com o objetivo de introduzir-lhes mutações associadas ao aumento do seu tempo de vida.

Atualmente, diversos estudos da engenharia genética visam aprimorar o DNA humano para formação de pessoas mais saudáveis e longevas. Existem, inclusive, pesquisas focadas na seleção/modificação genética de embriões, conhecidas como “design de bebês”, para este fim. E, por mais que se levantem polêmicas sobre estas pesquisas, elas já são uma realidade na nossa sociedade.

CRISPR aplicado para doenças graves tem uma justificativa bastante plausível: aliviar o sofrimento. Mas, quando se trata de editar genes para um aprimoramento humano, entramos num debate ético bastante contemporâneo.

Segundo o filósofo alemão Jürgen Habermas, manipulações genéticas podem alterar a autonomia futura de um determinado indivíduo, pois suas características deixam de ser fruto do acaso para se tornarem resultado do projeto de alguém.

Hans Jonas, outro filósofo alemão, já no século XX dizia que o poder tecnológico das novas gerações exige uma nova ética: a ética da responsabilidade.

E a pergunta ética, que fica, é a seguinte:

Quem decide o que é uma vida melhor?

Editar genes com efeitos desconhecidos a longo prazo levantam questões como:

E se alterarmos equilíbrios biológicos sutis?

E se efeitos colaterais só aparecem décadas, depois ?

Outra questão que se levanta, não menos importante, e certamente muito sensível, é sobre justiça social.

Quem terá acesso às tecnologias de longevidade?

Se estas tecnologias forem caras, complexas e limitadas a poucos centros, provavelmente elas ampliarão as desigualdades sociais, com alguns indivíduos vivendo entre 120 e 140 anos, enquanto outros terão sua expectativa média de vida em torno de 70 a 80 anos. Teríamos, então, uma divisão biológica de classes e um problema moral profundo.

Durante milênios, a humanidade buscou por elixires, fontes da juventude e mitos da imortalidade.

Hoje, a ciência substituiu o mito. E, com ela, surgiu um outro dilema:

Se eliminarmos a morte como horizonte próximo, o que acontece com a transmissão entre gerações, o ritmo social, a renovação cultural, o sentido de ciclo, a fé?

Já se fala em “estagnação geracional”, com elites biológicas permanecendo por séculos, no poder…

Outro ponto importante a se considerar: se a longevidade vier acompanhada de lucidez, saúde e vitalidade, ela até pode ser uma bênção na vida de alguém, mas se houver apenas um prolongamento biológico, sem qualidade de existência, talvez estejamos falando apenas de extensão de tempo, não de vida plenamente vivida…

Hoje, o consenso científico e ético, internacional, tende a apoiar edições genéticas para tratamentos de doenças graves, procura ser cauteloso com aprimoramentos genéticos, e, aparentemente, rejeita edição germinativa para “melhorias humanas”.

A tecnologia avança rápido.

A ética precisa correr junto!

Mas, para além das questões éticas e científicas que este tema suscita, eu pergunto:

Ainda que eventualmente possamos prolongar as nossas vidas, devemos realmente fazê-lo?

A longevidade altera o modo como compreendemos o tempo, o sentido da existência, a urgência e o valor da experiência. Então, se a vida deixa de ser escassa, ela muda de significado?

Houve um tempo em que os homens temiam os deuses porque eles controlavam a vida e a morte.

Hoje, começamos a temer a nós mesmos porque aprendemos a tocar no código da vida.

Se pudéssemos reescrever o tempo inscrito em nossas células, se a tesoura genética nos permitisse adiar o fim, o que exatamente estaríamos tentando salvar? A vida? Ou o medo deperdê-la?

A finitude sempre foi a nossa professora mais silenciosa. É ela que nos faz abraçar a urgência, perdoar mais cedo, amar mais intensamente. É aquele limite que nos traz algum significado.

Sem esse limite, o que acontece com o valor da vida?

Talvez prolongar a existência na Terra não seja o mesmo que ampliar a vida. Vida não é apenas duração de tempo. É intensidade. É presença. É consciência desperta. É viver o momento presente!

Se a ciência nos oferecer décadas adicionais, seremos mais sábios, ou apenas mais longevos?

E quem terá o direito de viver mais?

Se o tempo se tornar um privilégio comprado, além da desigualdade da riqueza, já tão presente neste nosso mundo, teremos também a desigualdade da existência.

Há algo de mais profundo a se considerar, também.

Quando tentamos alterar os genes para escaparmos do envelhecimento, estamos lutando contra a morte, ou contra a ideia de que não podemos controlar tudo?

Talvez a tecnologia seja menos sobre vencer a morte e mais sobre enfrentar nossa dificuldade em aceitar a nossa própria vulnerabilidade.

O problema, creio eu, não está na ferramenta, mas na intenção!

Se pensarmos no uso da tecnologia como um gesto de cuidado, ao invés de soberba, então poderíamos considerar o aumento da longevidade humana como um instrumento muito bem vindo para aliviar o sofrimento, proporcionar mais tempo para se repararem erros, para amadurecer, para amar melhor…

Mas o que mais me incomoda nesta história toda é que falamos tanto em prolongar a vida, mas não pensamos em aproveitar melhor o tempo que temos hoje!

Queremos mais anos, fato, mas o que fizemos com os que já recebemos?

O paradoxo é delicado: buscamos extensão, enquanto desperdiçamos presença.

Talvez o maior equívoco do ser humano não seja o medo de morrer, mas de viver distraído.

O tempo não é só duração. É possibilidade muito especial de existir no agora! Cada manhã, cada encontro, cada sorriso, cada lágrima, cada escolha…

Ainda que a ciência, um dia, consiga ampliar a nossa expectativa de vida, ainda assim, cada minuto continuará sendo único.

O tempo é um presente invisível porque não conseguimos enxergá-lo no hoje, já que nos encontramos perdidos, no mais das vezes, buscando pelo futuro.

Então este meu texto de hoje é um convite para celebrarmos o presente com toda a pompa e realeza!

Que cada minuto dele seja pleno de amor ao próximo, ao planeta, a nós mesmos (merecemos!) e a tudo aquilo que nos torne seres humanos melhores e mais felizes. Pois sendo melhores e mais felizes, consequentemente teremos condições de viabilizar um futuro melhor para nós mesmos.

Pense nisso!

Ah, sim…

Voltando ao caso Epstein, ele acabou sendo preso por motivos que ele mesmo criou, e, paradoxalmente, acabou se suicidando na cadeia. Justo ele, que fez investimentos tão vultosos em pesquisas direcionadas, dentre outras coisas, para o prolongamento da vida.

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About Kenya, uma simples amiga!

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