
Fujo da morte como quem tenta inutilmente fugir da própria sombra. Impossível livrar-me dela. Sempre ali, silenciosa, só esperando por um pequeno deslize meu para arrebatar-me, de uma vez, desta vida terrena.
Se me sento à mesa em dia de domingo, é como se ela se deslocasse suavemente pelo ar, da cozinha, direto para mim, trazendo-me aquele lindo prato de macarrão regado à muito molho de carne, tomate e manjericão, que eu adoro, por sinal. Vulto macabro, de capa longa e capuz preto, que muitas vezes esconde o rosto, mas que deixa entrever o cabelo horroroso e desalinhado. As mãos cadavéricas com dedos finos e compridos, de unhas pretas, enormes, sujas e curvadas, qual garras de abutre. Figura medonha, sem dúvida, mas que me traz uma macarronada linda e apetitosa, apresentando-a delicadamente e colocando-a sobre a mesa. Sentada diante de tão irresistível refeição, garfo e faca na mão, olho para a morte ao meu lado, de pé, silenciosa, impassível. Olho para o prato mais uma vez … convidativo ! Analiso: muito carboidrato, bem além do que a minha restrita dieta me permite, carne de animal, morto sei lá em que condições … hummm…. faltou o vinho! Mas reflito bem e simplesmente digo: “- Não, obrigada. Perdi a fome!”.
Se fico ansiosa por algum motivo qualquer e penso num cigarrinho para aliviar o estresse, quem me aparece, do nada, por cima do meu ombro, quase me matando de medo e toda solícita, com o isqueiro já aceso e apontando silenciosa e calmamente aquele dedo indicador magrelo para o maço de cigarros propositadamente deixado ao meu lado, ali, na mesa da sala, bem ao alcance de minhas mãos?! Ela mesma, a dita cuja. Olho para o cigarro e penso no sofrimento que este e tantos outros vícios impõem não só aos dependentes químicos, como também aos seus amados familiares e digo simplesmente: “- Não, obrigada. Parei de fumar.”
Se estou na estrada sozinha, carro veloz, pedindo para ser testado, fico animada com a ideia de dirigir em alta velocidade… quando então olho para o lado. De um novo sobressalto, isto já está realmente me incomodando… deparo-me novamente com ninguém menos do que a morte, agora num carrão preto, reluzente e conversível, de fazer inveja a qualquer um. Aquela figura exageradamente magra e alta, curvada sobre o volante, capacete preto, com detalhes em vermelho vivo, que esconde o rosto sob o visor escuro, mas que exibe o cabelo desalinhado e esvoaçante, ao sabor do vento. Confesso que não entendi muito bem a necessidade do capacete… só pode ser provocação! Ela tira uma das mãos do volante e silenciosamente aponta seus dedos magrelos para a frente, indicando a estrada vazia e claramente me desafiando para um racha. Observo a estrada longa, tranquila e convidativa. Tarde linda. Sol se pondo no horizonte. Olho para o lado: a morte dirigindo seu carrão emparelhado com o meu, ora acelerando, para me ultrapassar, ora freando para me permitir alcançá-la, numa clara provocação para o aceite ao desafio proposto. Penso nos meus entes queridos, que me aguardam para o jantar, e então tiro o pé do acelerador. Simplesmente digo: “- Hoje não, obrigada.” E então ela subitamente desaparece, para meu alívio, deixando-me entregue às minhas próprias considerações.
Sim, a morte está ao nosso lado a cada ínfimo segundo, pronta para nos arrebatar deste nosso plano terreno, a qualquer momento possível. Mas muitas dessas oportunidades de encontro com a morte são criadas por nós mesmos e de modo desnecessário, quando nos colocamos voluntariamente em situações de risco, ou quando agredimos nosso organismo com substâncias, ou mesmo pensamentos tóxicos e contrários ao nosso próprio bem estar! E se ela se afigura assim, tão horrenda, para mim, é porque provavelmente eu ainda me vejo muito apegada às coisas da Terra. Porque, se pensarmos bem, na verdade ela está a serviço de Deus, buscando-nos no momento apropriado, quando nossas experiências terrenas se encontram concluídas.
Um dia, quando eu conseguir viver com mais leveza e mais desprendimento, talvez eu a veja realmente como uma grande amiga que reservou um momento para me visitar e me levar para um lindo passeio, sem volta… E, quando isto acontecer, não sentirei medo algum, pois estarei amparada por essa amiga tão caridosa que soube aguardar pacientemente o momento apropriado para o meu desencarne, seguindo os planos espirituais carinhosamente traçados para mim!
E então eu entendo que devemos procurar viver mais plenamente. Amar mais, perdoar mais, rir mais. Não deixar muito as coisas para o “amanhã”, vivendo “o hoje” ao lado de quem tanto amamos, aproveitando cada dia como se realmente fosse o último, pois … um dia… vai ser, mesmo !
Mas eu também sei que viver com tanta leveza espiritual e menos apego à vida material não é tão fácil, assim! Percebo que minhas limitações são inúmeras e que ainda tenho muito o que caminhar. Os apelos terrenos são muitos e a minha luta pela evolução moral e espiritual nesta vida materialista ainda continua. Então, morte, se pretende continuar surgindo por aí para lembrar-me da importância da vida como valioso instrumento de aprendizado do espírito, por favor, pelo menos penteie esse cabelo e vá fazer as unhas.
É sempre um susto, cada vez que você me aparece!
____________________________ FIM ________________________________
Bom dia Kenya!!!
Toda vez que leio esse conto não consigo deixar de ver o seu lado cômico.
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Obrigada, Sá ! Tão bom ter você por daqui…❤
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