Saudades…

Hoje faz dois anos que minha mãe, a querida Dona Elvira, faleceu. Sinto tantas saudades da sua doce presença em minha vida, que resolvi escrever a respeito de seus momentos finais como uma forma de me convencer de que a sua hora realmente havia chegado, de que tudo o que poderia ter sido feito pelo seu bem estar, realmente o foi, de que os planos espirituais carinhosamente traçados para ela, assim como também os são para cada um de nós, tiveram como sublime propósito promover-lhe experiências edificantes que possibilitassem sua necessária evolução em pensamentos, sentimentos e atitudes, permitindo-lhe, deste modo, alcançar estados de consciência mais elevados dentro do processo de aprimoramento espiritual que cabe a cada um de nós, seguindo, como sempre, os desígnios de Deus. E que, uma vez alcançado tão abençoado objetivo, sua existência terrena naturalmente fora dispensada, como também assim o será para cada um de nós, no nosso devido tempo.

Procuro não me ater às circunstâncias precisas que a levaram ao desencarne deste mundo material para poupar-me de angústias desnecessárias. Procuro lembrar-me, sim, de seus últimos instantes, minutos, talvez, em que eu lhe pedia para lutar pela vida. Dizia-lhe insistentemente:

– Respire, mãe ! Respire ! Não desista !

E ela me obedecia ternamente. Minha querida mãe tinha acabado de voltar de um hospital particular (aquele mesmo, do escândalo das mortes por covid, amplamente divulgado pela imprensa – nota da autora em 04/02/2022) e respirava com dificuldade. Apesar dos meus desesperados apelos ao médico que a atendia, pois desconfiava de que um infarto silencioso estivesse em curso, o rapaz inexperiente e arrogante que se apresentava como clínico geral daquela triste casa de doentes receitou um medicamento qualquer, para diminuir-lhe os sintomas, e simplesmente nos mandou embora. O profissional da rede pública, onde o atendimento de emergência tinha inicialmente ocorrido, recomendara a internação da paciente por pelo menos três dias, para a normalização e monitoramento dos batimentos cardíacos, porém o novato que atendia na rede privada do convênio de saúde, para a qual minha combalida mãe tinha sido posteriormente encaminhada, simplesmente discordou do diagnóstico de seu antecessor e deu-lhe alta médica, alegando tratar-se apenas de um mal estar passageiro. Francamente, quem já não se viu em semelhante situação de descaso médico? Meus calorosos protestos de nada valeram naquele momento. Diante da conflitante situação, e talvez querendo poupar-me de maiores e inúteis discussões, Dona Elvira apenas pediu-me para sairmos daquele lugar. Estava muito cansada. Desejava repousar.

Obedeci, contrariada.

Já em casa e deitada em sua cama, a respiração era-lhe sôfrega. Mas, ainda assim, ao meu firme comando e acompanhando a entonação da minha voz, aquela figura pequena, mas corajosa, esforçava-se por respirar… fosse, como fosse … embora de modo cada vez mais espaçado … Olhos cerrados, numa clara e inglória batalha por um fiozinho a mais de vida, a minha querida velhinha demonstrava um esforço sobre-humano para poder permanecer um pouco mais entre nós! Lutava.

Diante de tão triste cena, minha angústia num crescer sem fim e já não sabendo mais o que fazer, ocorreu-me apenas dizer-lhe:

– Mãe, pense em Deus!

Ela assentiu com a cabeça, esboçou um pequeno sorriso e simplesmente morreu! 

Confusa e sem ação, permaneci ajoelhada diante dela, observando-a detidamente. Uma estranha serenidade apossara-se vagarosamente do lugar. Em ambiente calmo e acolhedor, experimentei tamanha paz nos instantes que se sucederam, que cheguei mesmo a acreditar que anjos por lá estivessem, auxiliando minha mãe nos trabalhos de desprendimento do espírito. Impossível descrever, em simples palavras, o que senti naquele momento!

Parentes e amigos foram chegando aos poucos, para o suporte necessário: ternos abraços, formalidades do óbito, etc… Lembranças de vários e bons momentos foram revividas com amor e respeito durante o velório. Tudo transcorreu de forma tão harmoniosa e perfeita que poder-se-ia dizer que fora meticulosamente planejado. E talvez o tivesse sido, mesmo. Dona Elvira costumava dizer que nada na vida acontece, senão por obra e desejo de Deus. Às vezes creio da mesma forma… e talvez tenha sido até por essa razão que aceitei a sua partida com tanta resignação, embora também com algum pesar …

Na manhã seguinte, após o enterro, despedi-me de todos com o coração grato pela imensa amizade e carinho por mim demonstrados e retornei para casa. Mas, por alguma razão, ainda me encontrava inquieta. Tudo tinha transcorrido de forma tão rápida, que parecia que minha mãe não tinha morrido, realmente… Era como se ela ainda vivesse entre nós e eu apenas estivesse envolvida em algum tipo de sonho, do qual teimava em acordar!

Diante de tamanho desconforto e não sabendo mais como lidar com inusitado sentimento, naquele mesmo dia do enterro, à tarde, resolvi voltar ao cemitério. Desta vez à sós, e no mesmo local de onde, não fazia muito tempo, acabara de sair, por alguma razão senti-me estranhamente calma e tive tempo de observar o entorno com vagar. Vi tudo muito florido e lembrei-me do quanto minha mãe gostava de flores! E naquele dia havia muitas, pois era dia dos pais e muitos filhos tinham vindo ao cemitério homenagear seus falecidos pais com lírios, rosas, margaridas, gerânios e tantas outras magníficas variedades de plantas. Pensei então que Deus tinha caprichado até neste detalhe! Estava tudo tão lindo! Senti-me profundamente grata por tamanha delicadeza divina!

Sentada num banco próximo ao túmulo de minha mãe, fiquei distraidamente observando as coroas de flores nele depositadas. Foi quando tive a impressão de tê-la visto de pé, olhando para baixo, muito próxima do local onde fora enterrada. Ela estava ligeiramente arcada, como se estivesse procurando algo perdido no chão, um anel, ou alguma outra coisa… Não entendi muito bem a cena e continuei a observá-la com certa curiosidade. Percebi então que na verdade ela não estava procurando por algo perdido no chão, estava, sim, tentando olhar através das flores, da terra e do próprio caixão para, talvez, certificar-se de que realmente seu corpo estava lá, meio que não querendo acreditar que de fato tivesse morrido! Não havia desespero, ou mesmo revolta em sua atitude. Percebi uma certa confusão, talvez, alguma tristeza em seu comportamento… e finalmente entendi o porquê do meu retorno àquele local… sua morte para essa vida ainda não tinha sido concluída! Notei que havia mais alguém com a querida Dona Elvira, segurando-a carinhosamente pelo antebraço e tentando convencê-la a sair dali. Não sei dizer se era meu falecido irmão, espírito próximo da família, pois não tive intuição nenhuma sobre sua real identidade! Talvez fosse meu avô materno, de quem minha mãe sempre se queixava de saudades … Não sabia, ao certo. Só sabia que era algum espírito amigo tentando ajudar e que eu também tinha que intervir. E o fiz, por pensamento, dizendo para a minha aturdida mãe que ela poderia, sim, ir embora. Que sua hora havia chegado e que, de agora em diante, ela estaria bem, junto aos espíritos amigos que sempre nos acompanharam durante esta longa e tão linda oportunidade de aprendizado, para todos nós, que costumamos chamar de vida! E como foi difícil, para mim, enviar-lhe mensagens reconfortantes sem ao mesmo tempo desmoronar-me diante dela. A dor da separação já se fazia presente…

Minha mãe era espírita e me criou dentro desta doutrina. Confesso que ainda tenho muitas dúvidas sobre o assunto e muitas vezes acho que o que eu vejo não é a realidade, tal como ela se me apresenta, mas, sim, o que o meu coração sinceramente deseja ver… Ilusão, ou não, o fato é que me dispus a me comunicar do único jeito que me cabia fazer, em pensamento, despedindo-me dela da forma mais clara e serena, possível. Dizem que alguns espíritos, logo após o desencarne, não conseguem perceber, de imediato, a sua nova condição de existência, muitas vezes confundindo-a com algum tipo de sonho, ou algo semelhante. Daí a necessidade que eu senti em tentar tirar a minha querida mãe daquele lugar, cuja triste permanência não mais lhe serviria de proveito, e convencê-la a procurar auxílio esclarecedor juntos aos amigos protetores que se dispuseram a ampará-la em tão decisivo momento.

Apesar de prestar atenção ao que eu dizia, aquela doce velhinha, por quem eu nutria o mais profundo sentimento de amor e gratidão, pareceu-me permanecer confusa, achando que de certo ainda vivesse … Ao menos aceitou ser conduzida pelo espírito amigo que ali se encontrava, deixando-se afastar do invólucro material para cujos propósitos de elevação e aprimoramento do espírito tinham sido dignamente encerrados. Então também saí dali. Afastamo-nos do túmulo sem dizer palavra. Eu fui numa direção e minha mãe na direção oposta. Ambas olharam para trás, já há uma certa distância, como numa espécie de ¨até breve!¨. E foi somente naquele momento, que senti que minha querida mãe realmente tinha partido. Eu também. No cemitério, só ficaram mesmo as flores !🌺

____________________________    FIM    ________________________________

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...