Esta noite vai ser longa…

Não sei quanto a você, leitor amigo, leitora amiga, mas em determinados momentos de muita insônia, que ocasionalmente me ocorrem por motivos de dor física, ou alguma amargura qualquer, a vida não perde a oportunidade de se aproveitar destas minhas situações perturbadoras para me jogar, bem na minha cara, todos os desmandos que fiz, ou provoquei durante esta minha confusa permanência aqui, no nosso querido planeta Terra!

E ela adora fazer isto à noite, quando sabe que eu estou sozinha, forçando-me, indefesa, a mergulhar nas profundezas de mim mesma, numa viagem insólita e atordoante por quase toda a minha existência pregressa, num pesadelo sem fim, trazendo-me à tona lembranças empoeiradas que poderiam muito bem continuar guardadas debaixo do velho tapete do porão do esquecimento.

E é sempre assim, nas minhas noites mal dormidas!

É o presente caso.

Enquanto eu, meio que arrastada pelos cabelos, pois é assim que me sinto, sou forçada a revisitar as entranhas do mal feito por mim, outras pessoas dormem tranquilamente o sono dos justos. Aquele sono profundo, gostoso e reparador, que cabe a toda pessoa de bem que soube usar devidamente as suas horas de trabalho e de convívio social, durante o dia, em benefício de sua própria evolução espiritual, assim como na dos queridos irmãos que lhes compartilham a existência!

Quanta diferença, entre nós…

Há cerca de 20 dias eu sofri uma lesão na coluna que atualmente me impõe repouso absoluto, o que me vejo forçada a fazer, entre um ataque e outro, de desespero. Isso porque não suporto ficar parada, sem fazer nada, e também porque me é difícil ficar o tempo todo na cama uma vez que, em qualquer posição que eu fique, ainda que de repouso, dói-me o corpo todo! Como também me é difícil ficar em pé, ou sentada, pois o esforço imposto para a execução de tarefas tão simples parace absolutamente impraticável!

Dor igual, eu sinceramente nunca vi!

Inicialmente parecia ser apenas um pinçamento no nervo ciático, como se isto já não fosse problema suficiente para me atormentar! Infelizmente, talvez não seja apenas isso …

Nos dez primeiros dias da lesão, eu até que estava conseguindo bravamente controlar a dor descomunal que sentia e ainda experimentar uma animadora recuperação, através de exercícios suaves de alongamento, nas práticas de Pilates e de Yoga, com o benefício extra de conseguir me abster dos medicamentos tradicionalmente utilizados para tais situações!

Não foi fácil, acredite, mas estava bem otimista com os pequenos progressos que vinha obtendo, apesar da grande dor que ainda sentia e de tudo o mais…

Porém, duas quedas subsequentes que sofri, por pura distração e no mesmo lugar da lesão, deram-me a certeza de que dores agudas muito piores, contínuas e persistentes se sobreporiam às que já me acometiam antes destes dois acidentes, o que de fato aconteceu.

E isto definitivamente me arrebatou de qualquer controle mental que eu viesse a ter para retomar o lento trabalho de recuperação do corpo através de exercícios físicos apropriados.

Eu simplesmente já não tinha mais condições psicológicas para tentar me reerguer do mesmo modo como vinha fazendo anteriormente, de forma paciente e através de cuidadosos exercícios físicos de alongamento.

Apelei, de imediato, para os médicos.

Desde então, doses cavalares de analgésicos e antiinflamatórios estão sendo administrados em mim, porém sem muito sucesso. Internação hospitalar e uso de morfina já estão sendo cogitados, para a minha tristeza…

Mas ainda mantenho a minha fé de que não precisarei chegar a este extremo!

Quem me conhece minimamente sabe muito bem que eu não sou nem um pouco fã da dor, ao contrário dos nossos amigos espíritas, que enxergam, na dor, um instrumento pedagógico e lapidador do espírito auxiliando-o no caminho do seu próprio progresso.

Já eu não penso assim, e ela, a dor, essa chata de galocha, insiste em pegar no meu pé!

Também não desejo nenhuma intimidade, nenhuminha, mesmo, com a nossa querida amiga morte, embora sinta, nos ossos, que eu já esteja flertando com ela. Tanto que, apesar de todo amor que tenho pela minha família e de desejar, a todo momento, estar com os meus entes queridos, eu confesso que, por duas vezes, eu sinceramente desejei morrer, tamanha a dor que senti ao tentar me levantar da cama, ou simplesmente por tentar andar.

Mas nem mesmo ela, a Morte, me deu bola!

Acredita?

Sim, porque, senão… eu nem estaria aqui, escrevendo para você, né?!

Uma reflexão que me foi imposta na solidão de uma destas minhas várias noites de insônia, em meio a dores infindáveis, e pelas circunstâncias que acabo de descrever, foi o modo como tratei minha querida mãe, que sofria da mesma doença, quando ela ainda vivia.

Sim, eu a amava, e muito, mas era “avoada”, como minha própria mãe costumava me dizer.

E hoje, percebo bem, era um tanto quanto egoísta, também…

Mas eu até que cuidava relativamente bem dela! Nunca lhe faltou médicos, ou procedimentos adequados para qualquer tratamento de que tivesse precisado!

Porém agora, padecendo do mesmo mal, vejo que os medicamentos tem lá as suas limitações!

A dor persiste e insiste!

E como persiste… e como insiste…

Quantas e quantas vezes eu ouvia com relutância, e às vezes até com alguma impaciência, as sinceras queixas de dor daquela doce velhinha, que tudo suportava com olhos de tristeza e algo resignada, desejando talvez um simples abraço, um conforto qualquer… que eu simplesmente não lhe fui capaz de dar…

Eu achava, veja você, que era exagero, ou mesmo algum nível de fingimento dela, querendo chamar atenção para si, já que, no meu dia-a-dia, eu vivia sempre ocupada com meus afazeres pessoais e quase não tinha tempo para ficar com minha mãe, como se aquele serzinho, tão elevado, precisasse mesmo de apelar para qualquer tipo de fingimento no intuito de conseguir afeto, ou mesmo alguma atenção de quem quer que fosse!

Fingimento que nada!

Agora que passo pela mesma dor, sei muito bem que aquelas súplicas por socorro que minha mãe me dirigia, muitas vezes às lágrimas, eram de verdadeira angústia.

E a lembrança das lágrimas dela, de quando me pedia ajuda, misturam-se, hoje, às minhas próprias lágrimas, não só da dor que realmente sinto neste presente momento, mas também de puro remorso.

Impossível descrever tamanho tormento no qual me encontro!

É fato que talvez fosse mais digno eu estar passando por tudo isto anonimamente, na solidão do meu quarto, mas resolvi compartilhar esta minha triste experiência na certeza de que nada do que eu possa fazer, ou dizer, trará a minha querida mãe de volta, mas ao menos poderá servir de alerta para você que me lê aqui, neste presente momento!

Então, meu amigo leitor, minha amiga leitora, aproveite a abençoada oportunidade que você tem, hoje, de efetivamente estar com os seus entes queridos para abraçá-los, ouvir o que eles têm a lhe dizer, sorrirem juntos.

Deixe-os se enxergarem dentro dos seus olhos e, com toda a alegria do mundo, sentirem-se amados!

Isto não tem preço!

E, em caso de doença, não deixe para amanhã, o conforto sincero que talvez você possa oferecer hoje.

O amanhã pode não vir…

Bom, as dores continuam…

Pelo jeito,

esta noite vai ser longa…

” A Saúde é uma aura em torno de todo homem sadio,

mas ninguém pode vê-la, senão um doente!”

____________________________    FIM    ________________________________

4 respostas para ‘Esta noite vai ser longa…

  1. Querida Kenya, a descrição que você faz do sofrimento por que tem passado, dói! Você é corajosa e determinada e vencerá. Daqui rezo por você e dou a mão para ajudar a resistir. Não vou comentar agora nada sobre temas transcendentes. Estou contigo
    Bj grande.

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...