Für Elise

Sugestão: Ouça a música Für Elise durante a leitura!

Acordei de manhã bem cedinho, animada com a modesta recuperação de saúde que venho experimentando desde a última visita de um espírito amigo que, através de suas orações e de aconselhamentos carinhosos, muito me ajudou a compreender, e de alguma forma até aceitar o delicado processo de aprendizado pessoal no qual eu me encontro.

Estava também feliz por saber que neste dia receberia a visita de um professor e querido amigo de longa data, dos meus tempos de USP!

Havia muito o que celebrar, portanto!

E não querendo perder mais tempo, levantei-me decidida a ensaiar alguns passos pela casa, deixando de lado, por breves momentos, o repouso absoluto que a patologia sob a qual me vejo submetida requer!

Meu médico pessoal até me havia liberado para sair da cama, vez, por outra, desde que eu não sentisse dor ao executar qualquer movimento, por mais simples que fosse como andar, sentar-me, erguer os braços, etc., algo praticamente impossível, até então!

Quem vem acompanhando meu blog sabe muito bem, do que estou falando…

Pois bem, apesar do grande medo que eu sentia de qualquer movimento em falso arremessar-me novamente para as dores insuportáveis que vinham me atormentando até o momento, caminhei devagar e resolutamente pelos cômodos da casa com discreta alegria ao perceber que andar para além de alguns poucos passos já não mais parecia um sonho impossível. E em cuidadosa incursão pela casa, como se a estivesse visitando pela primeira vez, dei com o piano do meu filho, na sala.

Que saudades, senti!

Meu filho, hoje com vinte anos, estudou por muito tempo, desde seus cinco anos de idade, num piano Brasil já muito velho na aparência, mas com um som ainda absolutamente magnífico! Ele praticava todos os dias naquele piano, incluindo sábados, domingos e feriados, ao menos uma hora, por dia.

E foi assim durante quinze anos de intensa dedicação…

Eu o acompanhava diariamente em seus estudos, sempre com muita alegria e satisfação. Fazia questão de parar o que estivesse fazendo só para ouvi-lo tocar. E percebia-lhe os erros, quando ocorriam, mesmo sem entender absolutamente nada, de música. Não perdia um único recital, ou apresentação na escola, ou o que fosse! Sua jovem, linda e extremamente talentosa professora, uma pessoa maravilhosa por quem tenho profunda admiração e carinho infinito, incentivava-me a estudar também, já que eu apreciava tanto o som daquele maravilhoso instrumento e ainda tinha, segundo ela, ouvido absoluto. Mas eu lhe dizia que ser mera ouvinte do meu filho já era suficiente! Eu me dava por muito feliz simplesmente assim!

Mas eis que aquele jovem talentoso resolve ir embora, estudar em outro país, seguir o seu próprio destino, como algum dia teria mesmo de ser…

E ficamos eu e o piano, em casa, desolados!

Bach, Beethoven, Mozart, Chopain, Villa Lobos, Ernesto Nazaré, dentre tantos outros, também foram embora com ele…

A solidão tomara conta daquele lugar!

Passados alguns meses de desconfortável silêncio, e pensando no conselho da tão querida professora, finalmente decidi aprender a tocar este instrumento para mim sempre tão desafiador, pois seria uma forma apropriada, pelo menos ao meu ver, de tentar estar o mais próxima possível do meu filho por quem eu sentia, como ainda sinto, uma saudade imensa, apesar de entender que nós, pais conscientes que somos, ou que pelo menos deveríamos ser, criamos nossos filhos para o mundo, e não para nós mesmos!

E foi assim que resolvi estudar piano! Inicialmente, como uma maneira de ainda manter, de algum modo, a presença daquele tímido, adorável e tão talentoso pianista numa casa que subitamente tinha ficado grande demais para mim, de tentar, fosse como fosse, preencher aquele vazio incomensurável que repentinamente se instalara na minha vida!

Num segundo momento, minha opção de me dedicar ao estudo deste maravilhoso instrumento se deu pela minha própria vontade de, também eu, poder compartilhar da companhia não só dos ilustres compositores aqui mencionados, como também de vários outros e quando eu bem o quisesse, por mim mesma, sem a necessidade da mediação de nenhum outro pianista, além de mim!

Quanta ousadia, né?

Também acho!

Mas… vamos combinar, quem não gostaria de passar uma linda tarde para lá de agradável com um grande mestre da música como Beethoven, por exemplo?

E agora, ao dar de cara com aquele velho piano na sala, por tudo o que ele representa para mim, senti-me compelida a tocá-lo! Quem sabe, pelo menos uma única música? Talvez… Für Elise, uma das minhas peças preferidas do meu compositor favorito, ainda que fosse por apenas alguns breves minutos, dada a minha condição de saúde não muito favorável para este tipo de esforço…

Estava envolvida nestes pensamentos quando meu querido amigo chegou para a tão aguardada visita!

Conversamos agradavelmente sobre vários assuntos e eu lhe mostrei meus pequenos progressos ao conseguir caminhar pela casa sem maiores embaraços, apesar de ainda sentir muita dor, ao andar!

Uma verdadeira alegria que pude compartilhar com ele!

O professor aproveitou então este momento especial de alegria para me oferecer um remédio homeopático que, na sua opinião, poderia ajudar-me na obtenção da cura que tanto desejo!

Pessoalmente eu não acredito em homeopatia, mas acredito muito na boa vontade dele, em querer me ajudar, assim como também creio na fé que ele tem em acreditar sinceramente que o auxílio sugerido surta o efeito desejado.

É o que me basta!

Aceitei o remédio oferecido com gratidão e segui criteriosamente a posologia recomendada.

E não é que experimentei evidente alívio nos meus sintomas, ao dormir? Naquela noite, pela primeira vez, dormi muito bem, em sono profundo e sem fazer uso de nenhum analgésico!

Estava temporariamente sem dor!

Ainda durante sua agradável visita, mostrei-lhe modestamente algumas músicas que já consigo tocar no piano. Tudo evidentemente muito rápido, dada a delicada condição de saúde que me impede de ficar sentada por muito tempo diante deste instrumento musical de que tanto gosto! Além do mais, meu repertório é pequeno, típico de uma simples aprendiz sem grandes talentos!

Não havia muito mais, o que mostrar… ainda assim, ousei ensaiar o Für Elise, de Betthoven, mas percebi para a minha surpresa que o ré sustenido, que aparece em quase toda a partitura desta música tão linda, estava bem desafinado, o que me fez desistir de executá-la!

Senti-me contrariada! Admito-o…

Terminadas as apresentações musicais e após mais alguns minutos de agradável conversa, meu amigo se viu em tempo de cuidar de outros compromissos. Antes de partir, porém, oramos em conjunto aos espíritos superiores na intenção de alcançar algum alívio das condições que me privam da saúde que tanto desejo recuperar!

Suas lindas palavras tocaram meu coração e, acredito, foram ouvidas por anjos, pois experimentei sensível melhora após sua partida!

Agradeci-lhe pela caridosa visita!

De volta às minhas próprias considerações, fiquei pensando na música Für Elise, bagatela para piano solo Para Elisa, em lá menor. Aquela mesma música, cujo trecho inicial algumas distribuidoras de gás de cozinha costumavam tocar em seus caminhões de entrega, anunciando sua chegada nas ruas dos consumidores com aqueles velhos, e hoje em dia não tão comuns botijões de gás, em seus tons cinzas, ou azuis já de há muito desbotados pelo tempo.

Lembra-se?!

Pois então, infelizmente eu não consegui tocar esta música para o meu querido amigo visitante pelo fato de o piano estar desafinado justamente numa nota com presença marcante em toda a partitura desta maravilhosa composição musical que Beethoven, acredite, ou não, nunca publicou!

E curiosamente é uma de suas obras mais conhecidas em todo o mundo!

Informações perdidas no tempo dão conta de que esta música teria sido supostamente escrita para uma mulher chamada Therese Malfatti, por quem Beethoven teria sido apaixonado. O manuscrito da música, em poder de uma certa Fraulein Babeth Bredl e que afirmava tê-lo recebido de Therese, foi entregue ao musicólogo Ludwig Nohl, que a publicou como sendo uma composição de Beethoven em 1867, quarenta anos após a morte do ilustre compositor!

Mas, se a música era dedicada à Therese, por que o nome Elise na partitura, então?

Há quem diga que por ser a letra de Beethoven horrível, quase indecifrável, os editores teriam confundido os nomes!

Há quem diga também que o próprio Nohl teria encontrado rascunhos inacabados do compositor e teria concluído a peça por sua própria conta.

E as dúvidas não param por aí!

Há também quem acredite que esta música realmente teria sido dedicada à uma mulher chamada Elise Baresfeld, no caso, uma jovem aluna de Beethoven e, até onde se sabe, um verdadeiro prodígio no piano!

Os entendidos no assunto dizem mesmo que esta música, de nível intermediário, não apresenta conotação romântica, mas, sim, algo mais despretencioso e alegre, talvez típico da personalidade da aluna de quem Beethoven aparentemente gostava e que desejava retratar em sua peça.

Quem quer que tenha sido a homenageada, sou-lhe muito grata por ter inspirado Beethoven em criar tão linda obra, uma das minhas preferidas! Mas confesso que nem ela, nem tão pouco nosso grande mestre da música gostaria de me ouvir tocando Für Elise, neste exato momento! Por certo “torceriam o nariz”, dada a terrível dor nas costas que já começo a sentir por permanecer tempo demasiado sentada, o que inevitavelmente afeta o modo como toco piano, pelo fato de o próprio piano estar desafinado justamente no ré sustenido, tão presente em toda a partitura da música, e, ainda, devido ao meu notório amadorismo em desenvolver tão linda peça com a qualidade devida, o que me faz repetir determinados trechos, à exaustão, enquanto ainda percebo erros na execução da música. Até meu marido, por duas vezes, veio reclamar comigo, interrompendo-me durante o meu sofrido ensaio e dizendo que o caminhão de gás parece ter estacionado definitivamente na rua de nossa casa!

Veja você, que desaforo!

Diante de plateia tão insensível, fecho o piano, vou embora!

____________________________    FIM    ________________________________

6 respostas para ‘Für Elise

    1. Obrigada, Cláudia, minha amiga do coração!
      Escrever é uma forma de compartilhar algumas experiências minhas que, acredito, possam ser úteis para quem me lê, seja pelos temas para os quais proponho alguma reflexão, ou apenas por entretenimento, mesmo!
      Quanta honra tê-la aqui, comigo.
      Traz significado para tudo o que faço!
      Gratidão! 🙏

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...