De boas intenções o inferno está cheio!

Para quem me acompanha, aqui, no meu blog, sabe muito bem o quanto eu considero a educação extremamente importante na vida de qualquer pessoa!

Tanto é assim que pausei minha carreira acadêmica (na época eu era doutora em ciências, pela USP – Universidade de São Paulo, e estava planejando iniciar um pós doutorado em redes neurais artificiais com aplicação em reatores de fusão nuclear à plasma, no Instituto de Física, desta mesma instituição) para criar um centro de educação infantil com o principal objetivo de garantir um ensino de qualidade para o meu próprio filho!

Quanta pretensão, não é mesmo?

Também acho!

Poucas mães, creio eu, foram tão longe com um propósito de tamanha relevância…

E, a partir daquele momento, meu filho, ainda pequeno, passou a frequentar a escola, comigo!

Poder-se-ia até mesmo dizer que ele praticamente nasceu dentro de uma instituição de ensino!

Passávamos o dia todo, lá!

Nós abríamos e fechávamos a escola todos os dias!

Eu vivia atarefada, cheia de questões típicas deste tipo de atividade, para resolver, mas valia muito a pena porque era especialmente pelo meu filho que eu fazia tudo aquilo, além, claro, do desejo sincero de possibilitar um ensino de qualidade a todos os demais alunos que por lá estivessem!

Por acreditar na educação como melhor agente indutor de transformação social que existe, e por querer muito oferecer, a todos, a melhor educação possível, eu não me importava em trabalhar tanto!

E como trabalhava!

E ele, meu filho, aprendia.

E como aprendia!

Aos cinco anos de idade, assim como seus coleguinhas, ele já estava plenamente alfabetizado (letra cursiva e letra bastão) e adorava ler!

Participava de todas as atividades da escola com aparente alegria: festinhas comemorativas, excursões, práticas desportivas (lutava judô), gincanas, aulas de música (atualmente toca piano), cursos de idiomas (atualmente fala fluentemente em alemão e em inglês, além de ter bons conhecimentos de espanhol e de falar e escrever muito bem em português, sua língua nativa), brincadeiras diversas, enfim, tudo de lúdico que havia para ser vivenciando naquela lugar tão lindo, especial e único!

Tudo parecia simplesmente perfeito!

Mas eis que, do nada, ao final de um dia cheio, como tantos outros dias que costumávamos ter, e já quase no horário de fecharmos a escola, aquele menininho meigo e tão inteligente entregou-me um desenho incomum, para uma criança que aparentava ser feliz.

Estranhei um pouco as cores daquele desenho, um tanto quanto sombrias e que destacavam uma criança triste, chorando…

O desenho era muito bem feito, impressionava pela qualidade dos traços, mas também era muito desolador…

Perguntei-lhe de modo despretensioso quem era aquela criança, tão triste! E, para a minha surpresa, sua resposta foi:

– Sou eu, mamãe!

Recebi aquela resposta com um sobressalto!

Aquilo caiu-me como uma pedra gigante, esmagando-me por inteiro, exatamente como no desenho animado do “Papa-léguas (bip-bip) e o Coiote“, lembra-se ?

Senti-me mesmo como que sugada pelo universo!

Eu vivia tão absorta no meu dia-a-dia, cuidando dos filhos dos outros, que passei quase que todo o meu tempo ausente da vidinha do meu próprio filho, embora, paradoxalmente, era por ele que eu estava ali!

Aquela doce criança precisou de fazer-me um desenho para chamar minha atenção!

Acredita nisto?!

Em qual planeta eu estava, meus Deus do céu, que não percebia a tristeza, já em largo curso, do meu próprio filho?!

Olhei detidamente para aquele menininho de 5 anos de idade tentando imaginar o que lhe poderia estar causando tamanho desconforto!

Durante um tempo interminável que se instaurou entre nós, pude me entrever em cenas diversas através daquele seu triste olhar: carregando os bebês do berçário no colo, cantando baixinho, para fazê-los dormir, ou brincando com as criancinhas maiores no parquinho, enquanto as professoras cuidavam de suas tarefas diversas, ou atendendo aos pais dos alunos, em questões outras, ou realizando fosse o que fosse para as atividades da escola seguirem seu rumo a contento e com a alegria que aparentemente reinava naquele lugar…

Quando íamos embora para casa, meu pequeno ia dormindo no banco de trás do carro, exausto, por seguir uma rotina de adulto. E, para ajudar ainda mais, morávamos muito longe da escola, o que tornava o nosso percurso, de volta, extremamente cansativo para ambos!

Que martírio, devia ser para ele!

Só agora, o percebo!

Lembrei-me com indisfarçável constrangimento de que quase não conversávamos, pois mesmo quando estava com meu filho, eu era constantemente requisitada para resolver questões diversas da escola, muitas delas prementes e demandando pronta solução.

Minha exagerada responsabilidade em cuidar dos alunos daquele estabelecimento de ensino, para o qual eu trabalhava com tanto afinco, privara-me da companhia da pessoa mais importante do mundo para mim, concluí.

Mal conseguia ser, para o meu próprio filho, a mãe carinhosa que costumava ser para os filhos dos outros, e que ele, muito sagaz, observava tão atentamente…

Ainda assim, pensava comigo mesma:

– Mas tudo isto aqui é por você!

Estávamos só nós dois na escola, como era de costume para aquele horário, mas acho que foi a primeira vez em que realmente senti que estava ali, presente, com meu filho!

Observava-o fixamente, com o coração consternado…

Numa silenciosa inspeção ao nosso redor, contemplava lentamente tudo o que eu havia construído, e que não fora pouco, por ele e para ele!

Meu intuito era genuinamente, e talvez ingenuamente, o de oferecer-lhe o que eu achava que seria simplesmente o melhor!

Pensava principalmente na boa qualidade de ensino que eu lhe queria proporcionar, como de fato o foi, sinceramente acreditando ser esta a melhor herança que nós, pais, podemos deixar para os nossos filhos: uma boa educação!

Mas então me veio à mente uma frase que eu e um amigo meu, vez, por outra, costumamos dizer em determinadas situações por nós presenciadas e que, apesar do sarcasmo, resume bem a realidade que eu estava vivenciando naquele fim de tarde tão inesperado:

De boas intenções o inferno está cheio!

E naquele exato momento, olhos fechados, após um longo suspiro, imbuída do mais profundo sentimento de redenção e com toda a serenidade do mundo, eu, silenciosamente, decidi vender a escola!

Abracei aquele garotinho adorável com todo o amor que uma mãe carinhosa pode oferecer a um filho seu!

Observei-o profundamente.

Seus olhos, ainda tristes, mantinham-se fixos em mim durante toda a nossa conversa.

E diante daquela criança tão amada, embora, talvez, sem eu nunca ter sido capaz de lhe demonstrar verdadeiramente o meu grande amor, disse-lhe olhando bem dentro dos seus lindos olhos:

– Mamãe entendeu o seu recado, viu?

– Obrigada por me lembrar do quão importante você é na minha vida, meu filho!

Dois meses depois a escola já tinha outros proprietários!

Vendê-la não foi nada difícil porque a proposta pedagógica, modéstia à parte, era excelente e todos os funcionários eram atenciosos e muito comprometidos com a nobre função por eles assumida. Ensinar, para todos os que trabalhavam naquela escola, não era só uma mera profissão a ser desempenhada com qualidade e eficiência, era também uma missão sublime, talvez até divina, de despertar nas nossas crianças uma vida voltada para a busca do conhecimento maior, expandir-lhes a consciência com senso crítico e bondoso!

“Quem ensina com amor,

pratica a caridade com sabedoria!” (Kenya)

Tornei-me então 100% mãe, sempre atenta e envolvida com tudo o que se relacionasse com o bem estar daquele serzinho que eu tanto amava. Evitava todas as atividades que viessem a me afastar da rotina do meu pequeno. E continuei assim, mãe dedicada, e acredito eu, até hoje!

Hoje meu filho cursa o ensino superior. Estuda em outro país, tem 21 anos de idade e ainda é, para mim, o meu pequeno que eu tanto amo, apesar dos seus atuais 1,91m de altura!

Sim, meu pequeno cresceu!

E aqui eu abro um parêntesis para narrar uma conversa engraçada que tivemos, quando voltávamos de uma escola alemã, na qual ele foi posteriormente matriculado.

Meu filho, então com 9 anos de idade, fez-me a seguinte pergunta:

-Mamãe, se eu lhe pedir uma coisa, promete que não vai ficar chateada comigo?

– Claro que não, querido!

Respondi-lhe.

– Tem certeza?

Insistiu ele, ainda um pouco preocupado!

-Claro que não, filho! Pode perguntar!

Respondi-lhe novamente e já curiosa!

– Então tá!

Disse-me ele. E continuando sem mais delongas, pediu-me delicadamente e com todo o cuidado do mundo, talvez por medo de me magoar:

-Mamãe, quando nós formos dormir (eu costumava orar todas as noites com ele, antes de dormirmos), não precisa mais de me dizer: “-vamos fazer naninha!” , tá bom? Basta apenas me dizer: “-vamos dormir!”. Eu já sou bem crescidinho, agora!

– “Oche, ah é ?”

– Então tá, meu querido crescidinho!

Respondi-lhe de modo divertido e, confesso, um pouco embaraçada, também, pois simplesmente ainda não me havia dado conta de que meu filho estava, sim, crescendo e que já não queria mais ser tratado como um bebê, no que estava ele muito certo, por sinal!

Fecho o parêntesis.

Compartilho esta minha experiência hoje com você, meu caro leitor, minha cara leitora, na tentativa de alertá-los para o fato de que, por melhores que sejam as nossas intenções, e na maioria das vezes elas são, é sempre muito importante procurarmos ver o outro lado daquele que de algum modo recebe alguma ação nossa!

Tentar, sempre que possível, realmente nos colocarmos no lugar do outro antes de fazermos, ou deixarmos de fazer alguma coisa em sua intenção, o que não é muito fácil, reconheço, pois exige de nós uma certa dose de humildade e, também, algum grau de desapego às nossas próprias ideias, dado que sempre temos a tendência enviesada de acharmos que o que estamos fazendo por uma determinada pessoa é realmente o melhor para ela.

Só que não…

Nem sempre é assim!

Não raro, vejo amigos meus incorrendo no mesmo erro que cometi, oferecendo o seu melhor para tudo e para todos, trabalhando arduamente, até, abrindo os braços tão caridosamente para o mundo, não obstante e ainda que inadvertidamente dando as próprias costas para pessoas tão próximas de si mesmas, muitas vezes, ao alcance de um simples abraço!

Algo para pensarmos sobre…

____________________________    FIM    ________________________________

4 respostas para ‘De boas intenções o inferno está cheio!

  1. Querida Kenya

    Uma historia tocante. Creio que uma das lições que podemos tirar é que sempre é necessário alinhar nossos horizontes. Ajustar e superpor tanto quanto possível as nossas expectativas se quisermos chegar juntos a um mesmo destino. Mas, minha querida amiga, isto nem sempre é possível por várias razões. E não são as diferenças que trazem dificuldades, elas sempre podem ser superadas, alguns detalhes que são superados num bilhete e num abraço como você nos conta. O que torna impossível a coerência dos horizontes é viver em oposição de fases, querer as mesmas coisas sonhar os mesmos sonhos mas caminhar em oposição de fases. Creio que é uma das mais difíceis e frustrantes experiências de vida. Mas é assim mesmo, não temos o poder de controle sobre a vida….

    Parabéns Kenya pela sua dedicação ao teu filho, você terá sua recompensa e ele encherá teus dias de alegria

    Bj grande

    PS. Você continua belíssima e cheia de vida, parabéns. Não me canso de te acompanhar embora a idade venha chegando rápido e as forças começam a se reduzir. Mas fique certa de minha grande estima mesmo que não seja explicita.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querido Luiz, meu eterno amigo!

      A beleza está nos olhos de quem vê. Obrigada por me enxergar com tanta bondade!

      Sim, concordo com você, quando diz que não temos controle sobre a vida. E, talvez, melhor que seja assim! Deus sabe o que faz!

      Quanto ao fato de a idade estar chegando, considero uma verdadeira bênção poder envelhecer neste mundo tão violento, de hoje, mantendo a mente tão brilhante a serviço da ciência, como você o faz com tanta competência e relevância! Que Deus o abençoe sempre!

      Quanto ao meu filho, meu único desejo é o de que ele seja feliz! Rezo diariamente para isso!

      Obrigada, mais uma vez, por sua doce presença, pois traz importante significado a tudo que escrevo! E a estima é recíproca. Saiba.

      Bj grande!

      Curtir

Deixar mensagem para Kenya, uma simples amiga! Cancelar resposta

Avatar de Desconhecido

About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...