Pequeno Grande Exemplo

Em algumas datas especiais como o Natal, Páscoa, Aniversário, Dia das Mães, dentre tantas outras, sempre que possível procuro levar flores para enfeitar o túmulo da minha mãe, a querida Dona Elvira, numa espécie de gesto simbólico, como se eu a estivesse, de fato, visitando; como se ela realmente por lá estivesse, aguardando pela minha visita.

Ela adorava flores…

Apesar de ser um cemitério, e, por razões que até compreendo, ser evitado por muitos, o lugar onde ela “simbolicamente repousa” é de fato lindo, florido, muito bem cuidado e obviamente bastante tranquilo, propício mesmo para me permitir reviver, com todo o carinho, muitas das doces lembranças de alguém que eu tanto amo e de quem ainda tanto sinto a falta!

Não! Não é preciso de estarmos em um cemitério, para nos sentirmos próximos dos nossos entes tão queridos e que já se foram! Basta mantê-los aquecidos em nossos corações, para sentirmos suas sutis e muitas vezes benéficas influências!

Ocorre que o contexto de estar ali, pelo menos naquele cemitério, onde todas as lápides são exatamente iguais, sem distinção para quem quer que seja, traz-me sempre a certeza do quão democrática a morte é! Não importa se sejamos ricos, ou pobres, altos, ou baixos, de esquerda, ou de direita, bons, ou maus, isso, ou aquilo! No momento devido, nem antes, nem depois, a nossa querida amiga morte virá nos buscar e nos mostrará que perante Deus somos todos iguais, sem exceções…

Aliás, e a propósito, escrevi um texto até bem divertido, sobre ela! O conto (clique no título, para lê-lo) se chama:

Minha Amiga, a Morte!

Fico então pensando quão melhor seria esse nosso mundo, se tantas pessoas, ao invés de ocuparem suas vidas com o acúmulo de bens materiais, ou na busca por status social, ou por audiências vazias em redes sociais diversas, etc., etc., etc., procurassem ser mais gentis, umas com as outras, assim como também com o nosso planeta, tratando de expandirem suas consciências para o bem e para algo realmente mais elevado, pois é a única coisa que de fato poderão carregar consigo mesmas, as suas consciências, quando for chegada a hora…

Além das flores, minha mãe também adorava manacás!

E você acredita que nasceu um pé de manacá bem pertinho do túmulo dela? Dá até gosto de ver esta árvore em períodos de primavera, de tão linda que ela fica com suas flores cor-de-rosa, sempre muito vívidas!

Costumo ficar sentada num banco de madeira, à sombra deste lindo manacá, lembrando-me dos bons momentos que eu e minha querida mãe tivemos juntas. E que não foram poucos!

Mas esta doce velhinha também aprontava muito comigo, sabia? Talvez, quem sabe, porque estivesse começando a ficar um pouquinho senil…

Quando viva, e já bem velhinha, ela tinha a mania de comer bombons de chocolate escondida de mim!

Eu ficava doida, com isso! E como ficava!

Em ela sendo diabética, eu a proibia terminantemente de comer doces. Mesmo assim, minha mãe, teimosinha como sempre, tratava de comê-los quando eu não estava por perto! E ainda escondia as embalagens do doces nos bolsos dos casacos, dentro do seu guarda-roupa, pois ela sabia que se jogasse aquelas embalagens no lixo, por certo eu descobriria e brigaria com ela!

E brigaria… meeesmo! Que dúvida!

A Dona Elvira até podia estar ficando um pouco senil, ao não conseguir mais compreender a extensão dos seus atos servindo-se por exemplo de alimentos doces que certamente lhe fariam mal, mas ao mesmo tempo não lhe faltava esperteza para me tentar enganar. Ah, isso não lhe faltava!

Era-me realmente um grande desafio lidar com aquela senhorinha espevitada, viu?!

Minha mãe morava comigo e eu vivia intrigada, sem de nada desconfiar, com o fato de sempre aparecerem formigas no guarda-roupa dela! Como não eram muitas, nunca me ocorreu investigar, a fundo, o real motivo destes insetos estarem sempre por ali, dentro daquele móvel tão visitado, do quarto dela!

Até que um dia, ao lavar nossas roupas conjuntamente, na mesma máquina de lavar, algumas das embalagens, que estavam escondidas nos bolsos das roupas dela, soltaram tinta e tingiram, de azul, mais de 6 quilos de roupa!

Na hora, eu não me havia atinado direito para o fato ocorrido! Pensei apenas que uma das roupas tinha soltado tinta e infelizmente manchado as demais! Mas, depois ….

– Espere aí!

Pensei comigo.

– Eu não estou lavando nenhuma roupa azul! De onde, raios, saiu essa cor azul, tão intensa, afinal?

Indaguei a mim mesma, já começando a suspeitar de alguém…

Vasculhando em meio às roupas molhadas, encontrei vários pedaços de papéis de embalagens azuis dos bombons da Nestlé e da Lacta! Você acredita?

Muito irritada, dei uma bronca danada, na minha mãe! Sobretudo por que ela era diabética e não podia, em hipótese alguma, consumir doces! Sua saúde estava em constante risco, por agir daquela forma! Quantas e quantas vezes, eu a tinha levado ao hospital, quase em coma, por conta desta sua gulodice! Ela tinha que parar de fazer aquilo! Era preciso! Mas, por outro lado, como fazê-la entender os riscos aos quais ela mesma se submetia, se a capacidade de discernimento já lhe começava a falhar?

E pelo tanto de tinta que aquelas embalagens de doces soltaram durante a lavagem das roupas, minha mãe devia ter comido, acredito, uma caixa inteira de bombons!

Misericórdia!!!!

E agora, neste exato momento, ao compartilhar aqui esta minha história com você, meu caro leitor, minha cara leitora, acaba de me ocorrer que ela devia ter algum cúmplice, à época, pois eu não costumava ter doces em casa justamente para poupá-la de riscos desnecessários à sua saúde!

Quem lhe teria dado aquela caixa de bombons, afinal?!

Nunca saberei…

Hoje em dia, veja você, sinto saudades de quando eu a pegava, no pulo, aprontando as suas artes! E não eram poucas! Ela fazia aquela cara de cachorro, que quebrou o vaso, e saía de fininho! Eu ficava muito brava com ela, na hora, mas depois acabava rindo sozinha, das suas travessuras!

Lembrei-me deste incidente com os bombons quando vi uma formiguinha passando bem perto do banco, próximo da lápide, sobre o qual eu me encontrava sentada. Imaginei então a festa que as formiguinhas do tempo da minha mãe deviam fazer, no guarda-roupa dela…

A de hoje não teve a mesma sorte!

A coitadinha carregava uma enorme folha verde em suas costas e parecia estar muito decidida, apesar da grande dificuldade que encontrava, em conduzir aquela importante carga para um formigueiro, que, até onde eu conseguia enxergar, não estava nada perto da gente!

Buracos na calçada, gravetos de vários tamanhos, poças d’água espalhadas por todo o lugar, enfim, diversos obstáculos obstruíndo-lhe o caminho, mas nada parecia impedir aquela obstinada formiguinha de concluir o seu trabalho!

Minha mãe também era assim, “trabalhadeira”, como ela mesma se autodenominava!

Nunca reclamava de nada! Fazia o que lhe era devido sempre com boa vontade e com um largo sorriso no rosto!

Por estar sempre de bem com tudo e com todos, parecia até que nem tinha problemas, embora eu soubesse que sim, ela os tinha, e não eram poucos…

Perguntei-lhe certa vez, quando a lucidez ainda lhe era bem presente, como ela conseguia levar a vida com tanta leveza, assim, a despeito de todas as mazelas que sabemos existir no mundo, como fome, guerras, desmandos políticos, degradação ambiental, etc. Isso sem contar, claro, questões de natureza pessoal, como por exemplo sua própria saúde, sempre tão delicada e demandando tantos cuidados extras…

Minha querida mãe respondeu-me com a naturalidade que lhe era própria:

– Assim como a formiguinha incansável, que trabalha diariamente no exercício de sua função sem se deixar influenciar pelo o que está à sua volta, também eu procuro modestamente fazer a minha parte, praticando o bem e dando o meu melhor por mim mesma e pelos outros.

Sei que não posso mudar os problemas do mundo, mas posso dar a minha pequena contribuição no sentido de torná-lo um pouco melhor, seja no meu exemplo de conduta, procurando agir com retidão numa sociedade que eu sei ser injusta, seja no amor ao próximo, que procuro praticar com sinceridade, seja no convívio carinhoso com a família, a mim confiada para lhes prestar os cuidados devidos, ou seja na minha fé, manifestada principalmente pelas minhas orações a Deus, a quem diariamente peço pelo bem de todos!

Ouvi sua resposta respeitosamente e com muita atenção. E pensei, comigo, mesma:

– Tá aí Um Pequeno Grande Exemplo, sem dúvida!

Orar a Deus com fé e pela intenção de muitos, isso eu já aprendi a fazer com a minha querida mãe, a quem eternamente agradeço pela abençoada lição. E o faço com amor! Quem me conhece minimamente pode falar por mim. Quanto ao resto, bem, confesso que ainda estou por aprender…

Sou muito brava, principalmente quando me vejo diante de injustiças! Armo um barraco fácil, fácil! Quanto a amar o próximo, bem… o próximo também precisa de colaborar um pouquinho, comigo… é importante que se frise isso! E quem me conhece bem, principalmente quanto ao meu temperamento, que fique quietinho/quietinha, aí, por favor!!! Nem precisa de se manifestar aqui, tá bom?!

Obrigadinha : )

____________________________    FIM    ________________________________

8 respostas para ‘Pequeno Grande Exemplo

  1. Boa noite,querida Kenia.

    O seu texto me fez refletir como tudo passa tão rápido e o tempo não volta,então temos que saber aproveitar e ter paciência com quem amamos.

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...