Suicídio

– Estou aqui, se precisar…

– Há quanto tempo você está aí?

– O suficiente para perceber que você não se sente confortável para tratar deste tema.

– Tem razão. É um assunto geralmente sensível para muitas pessoas e para mim também, em particular. Além do mais, não sou psiquiatra, nem terapeuta, nem mesmo religiosa convicta, para tratar desta questão com a propriedade devida. Temo prosseguir…

– Entendo, mas você é filha de Deus, assim como todos nós, e deseja sinceramente ajudar. Suas experiências pessoais, algumas delas baseadas em sua fé, podem servir como um sopro de inspiração para os que se encontram em grande aflição buscarem algum tipo de auxílio! Mesmo aqueles de todo descrentes podem eventualmente se beneficiar com os seus relatos, pois será uma oportunidade de eles poderem revisitar algumas de suas convicções mais profundas e, não raro, equivocadas, a respeito dos seus reais propósitos aqui, na Terra!

Você não gostaria, ao menos, de tentar escrever?!

– Se você me ajudar… se a gente não brigar… se você não sumir do nada, como às vezes costuma fazer… se realmente conseguirmos trabalhar de forma conjunta até o fim e sem maiores entreveros, sim, acho que poderia tentar!

– Claro! Para isto, estou aqui. Para auxiliá-la! E eu não sumo, do nada. Você é que inadvertidamente interrompe nossa comunicação quando muda o padrão mental originalmente estabelecido entre nós, durante a nossa conversa. E isto sempre acontece quando, por exemplo, você fica irritada! Eu não deixo de falar com você, você é que simplesmente não consegue mais me ouvir!

– Você já me disse isso, antes…

– Sim, por diversas vezes. Mas entendo bem esta dificuldade, que não é só sua, em disciplinar os próprios pensamentos. É um exercício a ser praticado por toda uma vida!

– Várias vidas, você quer dizer… pois realmente não é fácil! Acho que talvez seja por isso que eu acredite em reencarnação. Uma vida só é pouco, para aprimorarmos nossa conduta de forma eficiente e edificante.

– O que não nos impede de persistirmos na tentativa de mantermos sempre os nossos pensamentos e sentimentos elevados para o bem, seja lá a vida que estivermos vivendo e ainda que as condições para isso nos pareçam adversas!

– Sim, e é justamente diante destas adversidades, talvez por parecerem cruciantes demais para serem suportadas, que algumas pessoas infelizmente optem por abreviarem suas próprias existências, aqui, na Terra! Sempre me pareceu incompreensível, tal atitude, até eu mesma me deparar com tão triste dilema, por mais de uma vez…

Continue, por favor!

– Eu me vi diante deste infeliz pensamento em pelo menos duas situações, das quais me lembro perfeitamente bem: uma, há muito tempo atrás e por um motivo aparentemente nada relevante. Foi realmente uma idiotice, como descrevo numa publicação minha, cujo título é: Cuidado com seus desejos…

Em um outro momento, mais precisamente no ano passado, tive este mesmo pensamento triste num contexto totalmente diferente e diante de uma dor que me era absolutamente impossível suportar!

Falo também um pouco sobre esta minha experiência em outra publicação, cujo nome é: “Esta noite vai ser longa…

Por causa de uma séria lesão na coluna, via-me obrigada a ficar deitada numa cama e em repouso absoluto, sem poder mexer nenhuma parte do meu corpo, durante 24 horas ininterruptas, olhando apenas para o teto do quarto, num sofrimento inenarrável. Apesar das fortes medicações, às quais eu me submetia na esperança de encontrar algum alívio para tamanha dor que me acometia naqueles dias infindáveis, nenhum benefício obtinha! Eu dormia por exaustão, sempre com muita dor, e acordava a cada duas horas, aos sobressaltos, por causa deste verdadeiro martírio, que minava a minha já combalida capacidade de resistir física e mentalmente à tamanha provação!

Eu tinha acompanhamento médico e a cirurgia na coluna era indicada para a solução daquele problema. Contudo, e segundo próprias informações médicas, se eu conseguisse suportar tamanho desconforto por mais algum tempo, talvez a cirurgia pudesse ser evitada!

Diante desta possibilidade que me fora colocada e apesar da angústia, cada vez mais crescente, pois eu sabia muito bem o que viria pela frente, ainda assim resolvi aguardar pelo restabelecimento natural da saúde do próprio corpo…

Estava claro para mim, que eu poderia recorrer à cirurgia, em caso extremo, como também entendia que aquele inferno todo, pelo menos em hipótese, tinha prazo para acabar. Ocorre que o tempo que eu teria que aguardar, para só a partir de então começar a sentir algum alívio naqueles sintomas tão perturbadores era simplesmente e absurdamente longo demais!

E dia, após dia, a dor persistia. Nada indicava que aquele tormento, em algum momento, fosse sequer diminuir! Era realmente insuportável!

Foram 8 semanas de desespero constante! É só o que posso dizer…

Durante este período, tive 3 crises de pânico por causa da dor aguda e incessante, que sentia de modo ininterrupto. Nenhum remédio, acredite, dava conta de aliviar-me daqueles processos tão dolorosos! E eu tinha muito medo de operar a coluna! Realmente não queria!

Foi então numa destas crises, que sinceramente pensei na morte como uma possível solução para aquele meu terrível problema! Eu vivia muito atordoada e fraca, pois também não conseguia comer, dadas as condições em me encontrava, de forma que qualquer tipo de alívio, por mais drástico que fosse, parecia-me ser a alternativa mais plausível para aquela minha triste realidade, naquele momento!

Em situações de grande desespero, como uma dor aguda, por exemplo, a gente simplesmente não consegue raciocinar direito! E talvez por conta disto, eu realmente me via sem saída diante daquela circunstância tão adversa, para mim…

Moro no sexto andar. Pensei, então, em pular da janela. E fiquei mesmo tentando elaborar alguma estratégia que me auxiliasse neste intuito. Mas até mesmo para isso eu tinha dificuldade em focar minha atenção, tamanho o atordoamento no qual me encontrava!

Sim, pular da janela parecia ser uma solução, mas como fazer isso, considerando todas as minha limitações?

Mal conseguia manter-me em pé, tamanha a dor que sentia, muito menos seria capaz de me arrastar até a janela e, ainda por cima, cortar as telas de proteção, ali instaladas justamente para evitar acidentes! Além do mais, também não tinha forças sequer para segurar um talher que fosse, nas mãos, para poder me alimentar, quanto mais empunhar uma faca, ou utilizar uma tesoura para cortar a tela, que por sinal era bem rígida! E como se não bastasse, havia ainda um teto de vidro para proteger os pedestres da chuva, com várias ferragens que o sustentavam e que ficavam bem debaixo da minha janela.

Analisando a situação de modo bastante crítico e supondo hipoteticamente que eu realmente conseguisse me projetar para fora da janela, havia a possibilidade de uma destas ferragens amortecer a minha queda fazendo com que eu, no máximo, quebrasse uma perna. Aí, sim, era só o que me faltava! Além de não conseguir morrer, ainda por cima poderia quebrar uma perna! Já pensou?! Melhor nem tentar!

Desisti daquela ideia absurda entre um suspiro e outro de profunda dor… E olhando para um passarinho que discretamente pousara na minha janela, e talvez invejando-o pela liberdade da qual desfrutava, enquanto eu, presa numa cama, mal conseguia vislumbrar algum fim para tanto tormento, orei a Deus, em lágrimas, implorando-lhe pela tão desejada cura! Eu simplesmente já não suportava mais viver sob tais condições…

Era fim de tarde e aquele lindo passarinho começou a cantar na minha janela, quem sabe, querendo sinalizar-me que minhas súplicas talvez tivessem sido ouvidas!

Incrível como o canto daquele passarinho me fez tão bem!

– E foi somente na hipótese de não alcançar seu objetivo, que você desistiu de pular da janela?

– Não! Pensei muito na minha família e nos meus queridos amigos, também! Eu os amo muito, de todo o meu coração, e não queria abandoná-los! Jamais! A única coisa que eu queria mesmo era me livrar daquela dor dilacerante, que me tirava a vontade de viver!

Também pensei muito em Deus e no quanto o meu desespero me havia afastado de quem mais me poderia ajudar em momentos tão decisivos, para mim. Deus me dera a vida como valioso instrumento de aprimoramento do espírito. E a lesão na coluna, da qual padecia sem o menor alívio, fora por mim mesma provocada, ainda que sem o querer. É importante que se diga isso! Entendi então que devia prosseguir com a minha prova, mantendo sempre a fé e aguardando que a melhor solução para aquela triste situação me fosse encaminha no momento oportuno!

E naquela tardezinha, já bem mais calma, após a oração, e algo conformada, procurei manter o olhar naquele passarinho tão lindo, ali pousado, diante de mim! Prestava atenção no seu canto, quando lentamente comecei a adormecer… Lembro-me de ter esboçado um pequeno sorriso, imaginando que ele talvez me quisesse embalar os sonhos… E por razões que não consigo explicar, senti-me atendida.

Minha fé, mais uma vez, me salvara de um fim possivelmente trágico!

Mas o que é a fé, afinal? Muitas vezes eu mesma me pergunto! E honestamente não sei como explicá-la! Apenas sinto-a!

E talvez a fé não seja mesmo algo para ser explicado, mas, sim, algo para ser apenas vivido!

Só sei dizer que um profundo sentimento de gratidão tomou conta do meu coração, naquele dia! E a partir de então, comecei a experimentar modesta melhora em meu estado geral de saúde!

Veja, Deus não me trouxe a cura da enfermidade, que já estava prevista pela medicina dos homens, no plano material! O que Ele fez foi intervir no momento exato em que minhas forças já estavam de todo exauridas, ajudando-me a suportar, por um período ainda necessário, todo o processo doloroso de recuperação de que meu corpo tanto precisava! Ele evitou que meu desespero selasse o meu próprio destino, pois sabia que a cura que eu tanto desejava estava por vir!

Tempos depois, no post, “Für Elise“, falo da minha alegria em poder voltar a andar e de poder compartilhá-la com os meus queridos leitores deste blog, que já há algum tempo tão carinhosamente me acompanham!

Aproveito a oportunidade do momento para dizer que me sinto abençoada, por tê-los aqui!

No post, acima citado, também narro a visita de um querido amigo meu para quem, inclusive, consegui tocar um pouco de piano! Acredita? E pensar que, não fazia muito tempo, eu mal conseguia manter-me em pé, por breves segundos que fossem…

Neste ponto acho importante ressaltar que durante muito tempo, por absoluta ignorância minha, ou até falta de caridade, inúmeras vezes considerei os suicidas como sendo pessoas fracas, egoístas, ou mesmo ignorantes.

Só que não!

Tive que passar por isso, mais de uma vez, para finalmente entender que ninguém, em sã consciência, atenta contra a vida, agindo num movimento claramente contrário ao instinto nato da sua própria sobrevivência! O suicida é, antes de tudo e na acepção da palavra, uma pessoa desesperada, um sincero sofredor! Precisa de cuidados! Precisa de amor! Precisa de orações! E deve, sim, buscar ajuda, pois é muito difícil sair deste estado enfermo de consciência, sozinho! Que procure conversar com um amigo, ou parente, ou algum profissional da saúde. Mas, jamais, se isole!

Eu sinceramente sinto-me abençoada porque, além da minha fé em Deus, que fez toda a diferença neste processo todo de recuperação da minha saúde, também tive o amparo de amigos queridos e de familiares que me demonstraram um amor que eu nem esperava receber. Não fosse por tudo isto, certamente eu não estaria mais aqui!

– Lindo relato de superação e de fé, esse o seu!

Muitos são os fatores que levam uma pessoa a atentar contra a própria vida: casos patológicos, como loucura, depressão, esquizofrenia, dependência de drogas, dentre tantos outros que requerem tratamento especializado, ou atos impulsivos decorrentes do stress e/ou dificuldades financeiras, ou, ainda, repentinos infortúnios ou catástrofes sofridas, só para citar alguns exemplos. Excetuando-se os casos patológicos, os demais, não raro, resultam do comportamento de pessoas infelizes que se desesperam ao não conseguirem enxergar o fim para seus sofrimentos. Experimentam solidão profunda. Sentem-se desamparadas.

E é precisamente nesta hora, que a fé em Deus se faz necessária! Quantas vidas não teriam sido poupadas daqueles que, ao invés de voltarem sua mãos contra si próprios, unissem-nas numa atitude de oração, pedindo sinceramente a Deus por alguma providência!

É preciso ter fé! Agir em auxílio próprio, sim, pedir ajuda, sim, mas acima de tudo ter fé!

Quando em sincera oração, colocamo-nos em sintonia com forças do bem que se manifestam a nosso favor, seja para livrar-nos de um mal desnecessário, seja para nos auxiliar a suportarmos nossas próprias provas!

Em qualquer situação, a oração é sempre benéfica!

Perceba que, em seus dois exemplos, Deus se manifestou de forma diferente para você! Não lhes foram poupadas as situações necessárias para a sua própria evolução pessoal. Não obstante, foi-lhe dado o amparo superior do qual precisava para que você pudesse vivenciar suas experiências com o devido discernimento, respeitando-se, claro, os limites de aprendizado espiritual que cada circunstância lhe impunha!

Estejamos nós no plano espiritual, ou terreno, não nos cabe, nunca, julgar aquele irmão que passa por algum sofrimento. Cabe-nos, sim, ampará-lo, acolhê-lo e tentar, na medida do possível, evitar que ele imponha sofrimentos ainda maiores a si mesmo, quando lhe ocorre abster-se de uma dádiva tão linda de Deus, que se chama vida!

Cabe-nos praticar o amor que Cristo nos ensinou, enfim!

– Obrigada por sua doce visita! Suas palavras confortam meu coração. Gostaria, um dia, de realmente poder conhecê-lo!

– Você já me conhece… sou o seu filho Elias, minha mãe!

Silêncio…

EM TEMPO

Três meses após a recuperação da minha saúde, inventei de andar de skate!

Incrível como a gente se esquece da dor, tão rápido!

E como era de se esperar, arrebentei-me toda, pois meu equilíbrio ainda não estava plenamente restabelecido!

Obviamente não tive coragem de procurar pelo meu ortopedista!

Felizmente as novas lesões que sofri, em função da queda do skate, desta vez, no ombro e pernas, não foram graves, embora limitassem bastante os meus movimentos…

Tocar piano? Nem pensar! Pelo menos não, por enquanto…

Eu sabia que iria sarar, mas como o desconforto já estava começando a ficar preocupante por causa da dor e da limitação nos movimentos, resolvi orar:

– Deus, então, olha eu aqui, de novo…

____________________________    FIM    ________________________________

10 respostas para ‘Suicídio

  1. Oi minha querida amiga, boa noite.

    Seus temas são simplesmente maravilhosos, mais importante do que vc imagina, espero que atinja profundamente as pessoas que necessitam dessa ajuda.
    Seu coração iluminado, sua alma repleta de energia positiva, seu carinho são de suma importância neste mundo tão necessitado de amor, de compaixão.
    No ano de 2021 um amigo do meu filho que completaria 22 anos de idade, que eu conhecia desde os 2 aninhos de idade não resistiu às investidas do inimigo e se suicidou.

    Ainda sentimos muito e sua mãe não se recuperou até hoje.
    Por isso a importância de você neste mundo.
    Te amo muito.

    Leidiani

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    1. Sem palavras para agradecer por este seu lindo depoimento, minha amiga do coração!
      O tema é muito sensível para mim… e saber que o que eu escrevo pode ser de alguma utilidade, para alguém, me dá grande motivação para continuar neste trabalho!
      Deus a abençoe sempre!
      Também te amo muito!
      Saudades de “muitão” : )

      Curtido por 1 pessoa

  2. Acompanho e reflito sobre suas considerações. estou em situação complicada de tempo esse mês. Mas logo que puder mandarei alguns comentários. Apenas uma breve reflexão. Se suicidio é renúncia à vida, como se chamariam as renúncias a tantas coisas que fazemos ao longo da vida? São os eremitas suicidas?

    Curtido por 2 pessoas

    1. Meu querido Luiz Bevilacqua,
      Acho que é você, quem escreve, pois não vejo o seu nome : )

      Bem, quanto ao seu tempo, fique em paz!
      Sei o quanto é ocupado!
      Venha aqui quando puder!
      Você é sempre bem vindo, como sabe! ❤️

      Não sei se o termo renúncia se aplica, sabia?
      Talvez não estejamos renunciando a algo; talvez estejamos apenas fazendo escolhas. E toda escolha implica numa perda!
      E Deus nos deu o livre arbítrio para fazermos nossas escolhas, conforme o próprio nome diz, livremente!
      E, obviamente, devemos arcar com as consequências destas escolhas que fazemos! Pelo menos é o que se esperaria…
      Às vezes penso que utilizamos o termo renúncia como uma espécie de arrependimento sobre alguma escolha mal feita.Sabe?
      Então, eu não acho que quem considera que fez algum tipo de renúncia seja um eremita suicida, mas, sim, apenas alguém que se arrependeu de alguma escolha que fez!
      E está tudo bem! Viemos ao mundo para aprender, mesmo!
      E isto sempre implicará em cometermos erros e eventualmente acertos!
      De qualquer modo, preciso de pensar mais sobre a sua pergunta!
      Você me deu uma lição de casa e tanto : )

      Obrigada por sua doce visita!
      Beijo grande! 🥰

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      1. Querida Kenya muito sensato e cheio de conteudo o seu comentario.

        Na realidade fiz apenas uma observação simples, coisas que me vem a cabeça. Estou nas antevesperas dos 90 e começo a sentir o peso da idade. Na realidade esta na hora de descansar. Pe3ço desculpas pelas minhas observações, são coisas de velho. Voce sempre terá minha estima e admiração.pelo extraordinário trabalho que faz e dedicação ao proximo.

        Nao repare se submergir um pouco é a vida que prossegue. Se estiver interessada verifique a minha ultima aventura The corkscrew model. esta publicado numa revista de educação em fisica da Europa, na realidade uma revista pouco expressiva.Tem sido reprovada a ideia que proponho pela grande maioria dos fisicos.

        Bj grande e nao me queira mal

        Luiz

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...