A Caixa de Pandora: quando o Encanto vira um Risco…

A Caixa de Pandora trata de uma história muito antiga da mitologia grega, narrada por Hesíodo, onde uma mulher chamada Pandora recebe uma caixa, fechada, de Zeus, o Deus do Olimpo, como presente de seu casamento com Epimeteu. Nesta caixa havia todos os males do mundo (guerras, mentiras, ódio, doenças, inveja, etc.) e Pandora fora alertada, por Zeus, para mantê-la sempre fechada! Sua curiosidade e desobediência, contudo, fazem-na abrir seu lindo presente libertando todos os males até então desconhecidos pelo homem. Percebendo o erro cometido, rapidamente Pandora volta a fechar a caixa, deixando em seu interior apenas a Esperança, que fica no fundo da caixa, muito bem guardada.

E aqui eu abro um parêntesis: Na Bíblia é narrada a história de Eva, uma mulher que não resiste à tentação de comer a maçã oferecida por uma serpente, oferecendo-a, também, à Adão que igualmente come do fruto proibido. Como resultado, ambos são expulsos do paraíso juntamente com toda sorte de pecados e sofrimentos que são levados para o mundo. E, assim como na Bíblia, também aqui, na mitologia grega, uma mulher é a responsável por todas as mazelas que acometem a humanidade!

Mas, cá entre nós (que os deuses não nos ouçam), por que foram inventar de dar para a Pandora um presente que não era para abrir? Na boa, se alguém me vem com um presente deste tipo, eu simplesmente o devolvo! Tivesse Zeus dado um cavalo alado, no lugar do raio da caixa, ora bolas! E, repare, é sempre uma mulher que está no centro dos problemas!

Ninguém conta, mas eu aposto com você que naquela caixinha sinistra também tinha um bando de políticos corruptos, dentro dela! Ah, isso tinha, sim! E deu no que deu, né?! Graças a Pandora, eles todos saíram de lá para virem, aqui, infernizar as nossas vidas! E… para sempre!

Brincadeiras à parte, segundo a mitologia grega, desde o início Zeus queria mesmo era punir os humanos pelo fato de o titã Prometeu tê-los ensinado o segredo do fogo. E ele, Zeus, contava com a curiosidade de Pandora, que por certo a impediria de resistir à tentação de abrir a caixa para dar ao menos uma espiadela no seu valioso conteúdo!

Mas não foram os humanos que roubaram o segredo do fogo, foi Prometeu que os ensinou! No entanto, a ira de Zeus, bem como sua vingança foi direcionada aos pobres mortais que por lá viviam!

E é sempre assim!

Vejamos outro exemplo:

Nas inúmeras traições de Zeus, sua esposa Hera vingava-se das mulheres seduzidas pelo infiel marido sem levar em consideração que era Zeus, mestre da metamorfose e ardiloso sedutor, quem as enganava de maneira muito eficiente para obter-lhes prazer sexual e espalhar sua prole pelo mundo. E a lista de filhos deste ilustre cidadão não é pequena: Afrodite, Apolo, Artemis, Atena, Dionísio, Hefesto, Hércules, Hermes, Perseu, só para citar alguns! E isto sem contar, ainda, as musas!

O recado que parece estar subjacente na maioria destas narrativas mitológicas é sempre o seguinte:

Muito cuidado, quando te metes com os poderosos. Não importa o que aconteça, sempre “sobrará” para ti!

Confesso que meu pensamento cartesiano atrapalha um pouco a leitura que faço de diversas narrativas mitológicas pelo fato de elas, não raro, esbarrarem no “fantástico demais”, para o meu gosto. Mas também sei que estamos falando de tempos idos, de uma cultura muito antiga onde as mensagens de vida/aconselhamentos por trás de cada história contada já valiam por si só, indo para muito além da racionalidade/razoabilidade do contexto apresentado.

Dito isto, voltemos ao mito da Caixa de Pandora: a mensagem que está por trás da história narrada neste mito aponta para situações nas quais uma atitude aparentemente inocente, como o simples abrir de uma caixa, pode desencadear consequências tão imprevisíveis, quanto desastrosas! Aborda a natureza humana em sua curiosidade pela busca do desconhecido, mesmo diante de consequências possivelmente indesejáveis, assim como também mostra que o ser humano nunca perde a esperança, ainda que se depare com dificuldades supostamente intransponíveis.

E, neste ponto, eu me sirvo desta antiga narrativa mitológica como metáfora poderosa para estabelecermos um paralelo com temas contemporâneos preocupantes, como o uso de Bebês Reborn para além do seu propósito original!

Embora haja muito sensacionalismo em torno deste assunto com o objetivo de monetizar a atenção do público, dentre outros propósitos que nem cabe especificar aqui, fato é que o problema é real, portanto existe, e demanda uma atenção cuidadosa daqueles que genuinamente se preocupam com o bem estar social.

Os Bebês Reborn são réplicas hiper-realistas de recém-nascidos criados com finalidades legítimas: recursos terapêuticos para ajudar pessoas a lidarem com o luto perinatal, favorecer o desenvolvimento da empatia em contextos sócio-educativos, ou como forma de expressão artística. Não obstante, quando estes pedaços de borracha são tratados como bebês reais de maneira contínua e emocionalmente intensa, abre-se uma espécie de “Caixa de Pandora” psicológica! O que começa como conforto emocional pode rapidamente se transformar em fuga da realidade, isolamento social e dificuldade de se trabalhar lutos verdadeiros. A função simbólica do objeto se perde. E o que era para ser um instrumento de cuidado transforma-se em sintoma de uma fragilidade emocional não elaborada.

Assim como na mitologia grega, onde a beleza e o fascínio da caixa escondem riscos profundos, também a substituição de interações humanas reais por vínculos com objetos inanimados podem levar as pessoas ao risco de alimentarem distorções emocionais muito perigosas para si mesmas na medida em que adiam ou evitam enfrentamentos necessários para o seu próprio amadurecimento emocional.

O perigo não está no boneco de borracha, em si, mas na linha tênue entre o conforto simbólico, que ele proporciona, e a alienação emocional que pode ser provocada a partir de um interação ilusória com esta “criança de mentirinha”! Uma linha que, quando ultrapassada, pode abrir caixas perigosas e difíceis de se fechar!

A história de Pandora nos lembra que nem toda curiosidade deve ser satisfeita sem a devida reflexão! E, no caso dos Bebês Reborn, é essencial procurar manter sempre o olhar crítico e compassivo: o encanto deve estar a serviço da saúde emocional, e não do seu comprometimento!

Talvez estejamos diante de uma doença coletiva crescente, onde os “Bebês Reborn”, tratados como bebês reais por muitas pessoas, sejam apenas a ponta do iceberg. Veja, por exemplo, o caso dos Therians, indivíduos na faixa etária principalmente de adolescentes e jovens, que se identificam com animais a tal ponto de imitarem seus comportamentos ao extremo, como andar sobre quatro apoios, fazerem cirurgias plásticas alterando suas feições para se parecerem, ao máximo, com os animais pelos quais sentem afeição, emitirem grunhidos, ao invés de falarem, etc.

A metáfora da Caixa de Pandora alerta-nos para os riscos de uma entrega, não mediada, à fantasia pura! Mas, por outro lado, ela também nos aponta para a existência da esperança, que talvez ainda reste como último elemento para ancorar no enfrentamento consciente e necessário desta nossa nova realidade!

___________________________    FIM    _________________________________

2 respostas para ‘A Caixa de Pandora: quando o Encanto vira um Risco…

Deixar mensagem para Anônimo Cancelar resposta

Avatar de Desconhecido

About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...