Será o Mal, Necessário?

Numa tarde muito agradável, de outono, vi-me sentada num velho banco de madeira encardido pelo tempo, observando o vento balançar as folhas de uma linda árvore que ocupava majestosamente o centro de uma praça antiga. O lugar era particularmente bonito, com inúmeras e delicadas flores muito coloridas e cuidadosamente plantadas em todas as áreas verdes que por ali havia!

Reflexos de alguns raios de sol ainda podiam ser vistos sobre várias folhas desta árvore fazendo-as parecerem como se douradas fossem, dançando ao sabor de um vento insistente, numa espécie de ballet improvisado para agradar a quem quer que por ali se detivesse em apreciar, ainda que por alguns instantes, tão singular beleza num dia tão comum e, ao mesmo tempo, tão especial!

Diversos pássaros voavam para lá e para cá, ora pousando nos galhos daquela linda árvore, ora no velho banco, onde eu me encontrava sentada. Estavam alvoroçados, talvez pela magia do momento, e  cantavam alegremente como se quisessem anunciar que outros dias tão especiais, bonitos e agradáveis, como aquele, ainda estariam por vir.

Entretia-me absorta e verdadeiramente feliz por presenciar tão maravilhosa cena da natureza! 

Não demorou muito, porém, para eu me lembrar daqueles que não se podem dar ao luxo de parar suas árduas rotinas para contemplar o seu redor com o mesmo vagar, nem mesmo uma olhadela rápida, que seja, ocupados que estão com a sobrevivência do dia-a-dia, ou defendendo-se de algum mal inesperado que, não raro, assola-lhes  a vida… 

Em instantes o sorriso que eu trazia no rosto se desfez e meu semblante, agora sisudo e algo preocupado, voltou-se para o vento lançando-lhe uma pergunta sincera e angustiada:

– Se Deus existe, e é bom, como é que o mal ainda corre tão solto, por aí?

Fiz a pergunta na esperança de que um amigo espiritual, que vez por outra conversa comigo, pudesse respondê-la para mim… 

Ele não me respondeu. Tão pouco o vento. Mas a pergunta ficou balançando entre os galhos da árvore, feito roupa no varal, tentando secar a dúvida…

Entendo a complexidade da pergunta que fiz. Ela permeia tanto a filosofia, quanto a espiritualidade, assim como também os nossos corações, manifestando-se como uma inquietação profundamente humana que atravessa, há séculos, a nossa existência.

Enquanto eu aguardava pela resposta que não vinha, lembrei-me de um lindo conto budista, onde um discípulo seriamente preocupado com o mundo perguntava para o seu mestre:

– Há tanto mal lá fora, mestre: guerras, doenças, mentiras, egoísmo, ódio… Como é possível que tudo isso possa existir, se a gente também admite a existência do bem?

O mestre, sentado à beira de um lago, não respondeu ao discípulo, de imediato. Apenas lançou uma pedra na água. A superfície da água, perturbada pela presença da pedra, transformou-se em ondas que se espalharam em círculos até tocarem a margem do lago para, depois, se acalmar, novamente.

Veja a água! – disse ele. – A pedra que afunda é o mal? Ou é apenas uma parte do movimento? 

O discípulo hesitou e então o mestre continuou:

Você conhece o símbolo do Yin e Yang? – Perguntou o mestre ao discípulo.

– Sim. O branco e o preto entrelaçados, com um ponto do oposto, em cada lado. – respondeu prontamente, o discípulo.

Exato! – disse o mestre. E continuou:

– Algumas pessoas costumam achar que o branco é o bem e o preto é o mal. Mas não é assim. Yin e Yang não são inimigos. São faces da mesma verdade: tudo o que existe, pulsa em contraste. A noite precisa do dia para ser noite. A compaixão se revela onde há dor. E até mesmo a maldade, por mais difícil que nos seja aceitá-la, revela a ausência de compreensão. Mostra-nos a necessidade de um real aprendizado.

O discípulo olhou para o céu, que começava a escurecer, e perguntou, ainda preocupado:

– Mas como viver, então, mestre? Como saber o que é certo, se tudo carrega o seu oposto?

O mestre sorriu com leveza e respondeu:

– Não é sobre escolher entre luz e sombra, mas aprender a caminhar entre ambas. O bem não é um campo de batalha contra o mal, mas um estado de equilíbrio. Uma mente que enxerga com clareza, age com compaixão e reconhece seus próprios extremos.

Fez-se silêncio. Um pássaro cruzou o céu. O vento soprou o rosto do discípulo, que sorriu como quem encontra algo que não sabia que havia perdido. O sol se escondia por trás das montanhas e a noite caía serena, não como uma inimiga da luz, mas como seu espelho…

Um belo conto, realmente. Mas… já acabou? Cadê o resto? Será que eu me esqueci do resto do conto? O discípulo se contentou com esta resposta?!

Como assim ?!!!

Alguém me chame este mestre, aqui, por favorzinho?!

Longo silêncio se fez, interrompido apenas pelo cantar dos pássaros.

Aqui pensando, comigo mesma… talvez o mal não seja, assim, um defeito da criação, como sempre me costumei a achar… mas, quem sabe, o risco da liberdade. Um espaço deixado em branco para que escolhas possam ser feitas e refeitas, quando necessário…

Talvez o bem só tenha valor quando for opção, não imposição.

Mas meu cansaço é grande. Confesso!

A gente liga a televisão e só vê guerras, injustiças, crianças chorando de fome, enquanto sobram pães nos altares. Mídias sociais monetizando a desgraça alheia. Fake news e discórdia para todo o lado…

A dor do mundo é barulhenta. E a minha angústia não é pequena…

Já o Bem é tímido. Não faz alarde, quando alguém estende a mão para um estranho, em dificuldade, ou quando uma mãe perdoa o imperdoável.

Mas ele existe… em silêncio…

Talvez Deus, em sendo bom, não seja aquele bombeiro que tanto desejamos para apagar os incêndios da vida, mas o sopro divino que procura despertar consciências. Um parceiro invisível que se recusa a manipular, mas que insiste em inspirar. E a nós, cabe-nos decidir se caminhamos com Ele, ou não…

A pergunta sobre a necessidade do mal não é apenas teológica, mas profundamente humana. É o nosso incômodo diante da incoerência do mundo e, quem sabe, uma das maiores provas de que carregamos dentro de nós algo de divino: esse desejo persistente por justiça, pelo sentido da vida, por redenção…

Cansada de esperar pela resposta que não vinha, levantei-me do banco lentamente, na intenção de me afastar dali, carregando comigo a minha pergunta, de volta…

Olhei para trás.

O vento ainda balançava as folhas daquela linda árvore como se a estivesse acariciando. Os pássaros continuavam cantando alegremente, pousados em seus galhos, e as delicadas e coloridas flores enfeitavam o entorno com particular graça, como se soubessem, orgulhosas, da beleza que emprestavam àquele lugar.

A vida seguindo o seu curso…

Tem coisas que a gente não entende, parece que só atravessa.

Talvez, a pergunta não buscasse resposta, apenas companhia no pensamento…

E eu me senti, sim, acompanhada.

Acompanhada pela árvore, pelo vento, pelos pássaros, pelas flores, pelo discípulo inquieto, pelo mestre sábio e pelo meu amigo espiritual, que finalmente resolveu se manifestar.

Por favor, continue! Suas considerações são muito oportunas para o presente momento! – Disse-me uma voz já muito familiar.

Surpresa e feliz com a ilustre presença, voltei a me sentar. E comentei:

– Você demorou para aparecer! Achei que me deixaria entregue às minhas próprias considerações, desta vez!

Após alguns segundos, suponho, de breve ponderação, o generoso espírito me respondeu:

– O tema que você aborda é sensível. Eu lhe poderia ter dado uma breve resposta, mas havia a necessidade de alguma anterior ponderação de sua parte, a respeito, pois é preciso tempo para semear o que é profundo.

Continuando a observar o vento, que soprava as folhas da árvore indiferente à minha presença, aguardei em respeitoso silêncio pela continuação da conversa. E o espírito continuou:

– O mal é como a sombra de alguém que ainda não descobriu a luz dentro de si.

– Mas Deus não poderia acabar com ele? – retruquei impaciente.

– Poderia! – respondeu meu interlocutor, serenamente. – Mas Deus preferiu nos dar a oportunidade da escolha. A alma só cresce quando aprende a escolher. O mal não é um castigo, nem um mistério sem saída. É uma escola silenciosa. O egoísmo, a raiva, a violência e tantas outras mazelas humanas constituem-se em erros de percurso de quem ainda está aprendendo a amar. São tentativas, ainda falhas, de encontrar paz fora de si.

– Longo percurso, este, né? – observei, desanimada.

– Sim! – respondeu-me o espírito amigo. – Mas não é motivo para desânimo!

– A gente erra muito, antes de acertar! – continuou. – mas cada dor, cada perda, cada lágrima… nos mostra o caminho de volta. É como se o mal nos ensinasse o bem pelo contraste.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, entretida em observar dois pássaros disputando espaço num mesmo galho da minha amiga árvore, sempre tão acolhedora…

Lembrei-me do conto budista e perguntei:

– Então… o mal não vence?

– Não, respondeu-me gentilmente o atencioso espírito.Ele se cansa. Desaprende! – brincou comigo. E continuou:

Um dia, todo espírito se levanta. Mais generoso. Mais sábio. Mais livre. Porque todo mal é ignorância em processo de aprendizado.

E, naquele instante, quando o ventou balançou, mais uma vez, aquelas folhas douradas que tanto capturavam a minha atenção, senti que alguma coisa dentro de mim também se havia movido.

E, como alguém que compreende, mesmo ainda sem tudo entender, voltei a sorrir.

O vento finalmente soprara para longe, a minha angústia.

O espírito amigo também se foi, com o vento.

Também eu, fui embora…

___________________________    FIM    _________________________________

2 respostas para ‘Será o Mal, Necessário?

  1. …mas o que é o mal?

    “(…) egoísmo, a raiva, a violência …” são “mal” pelo simples fato de existirem? A natureza, a “realidade” e a vida simplesmente o são ou somos nós que nomeamos, qualificamos e quantificamos as coisas? Teríamos nos tornado a espécie que somos hoje sem o “egoísmo”, a “raiva” e a “violência”? Há vida sem esses e outros elementos que muitas vezes consideramos mal? Um tornado que devasta uma cidade e ceifa vidas é mal? Um tsunami que arrasta milhares, é mal? Pq precisamos de um deus para compreender ou justificar a nossa própria invenção de bem e mal? ….mal, ele existe? …o que é o mal?

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    1. Adoro as suas colocações, meu querido Milton!

      E o que o seu curso de psicologia fala a respeito da existência, ou não, do mal? Quero aprender com você!

      Bom, minha opinião:

      Filosoficamente falando, segundo Platão e Santo Agostinho, o MAL seria a ausência do BEM, assim como a escuridão é a ausência de luz. O MAL seria aquilo que surge quando falta amor, compaixão, ética e equilíbrio. Ele não teria existência própria, mas seria um vazio, uma ruptura na harmonia.

      Moralmente falando, o MAL poderia estar associado a ações, pensamentos ou intenções que causem sofrimento, injustiça ou destruição. Ele aparece na escolha consciente de ferir, explorar ou negligenciar o outro. Está presente na ganância, na intolerância e no egoísmo que ignora o coletivo.

      Já psicologicamente, o MAL poderia ser visto como fruto de traumas, desequilíbrios, ignorância, medo e desconexão emocional. Muitas vezes, as ações consideradas más nascem da dor não resolvida, da falta de empatia, da cegueira interna.

      Em termos espirituais, o MAL não seria um inimigo externo, mas uma força interna que cada ser humano precisaria de aprender a reconhecer e transformar. Seria a luta constante contra os próprios impulsos de egoísmo, arrogância, raiva e inveja. O MAL seria, assim, uma oportunidade para a consciência amadurecer, escolher, crescer.

      Do ponto de vista do equilíbrio, o MAL poderia ser entendido como parte da dualidade da existência. Ele não surge como punição, mas como contraste necessário para que o BEM seja percebido, desejado e escolhido. Sem sombra, não há a percepção da luz. Sem dor, não há busca pela cura.

      Dito isto, um tornado ou tsunami, como você mencionou, um terremoto ou quaisquer outros acontecimentos naturais potencialmente catastróficos para os seres humanos não são, por mim, interpretados como MAL. Mas eu certamente não gostaria de estar por perto, quando algum destes eventos ocorresse…

      Quando alguém mata um outro alguém, um seu semelhante, ele é MAL, ou apenas um ignorante da vida ainda por aprender o verdadeiro significado da compaixão e do amor?

      Se Deus for apenas uma invenção, dentre tantas invenções humanas criadas para se tentar explicar o inexplicável, então, em resposta à sua pergunta, não precisamos dele para absolutamente nada.

      Mas…se Deus for, como creem alguns, inclusive eu, uma existência/consciência superior à nossa, sobre a qual depositamos toda a nossa fé e esperança de um mundo melhor, então, na minha humilde opinião, precisamos Dele, sim, para tentarmos compreender o BEM e o MAL, independente do contexto semântico que se adote, e suas influências, boas ou más, em nossas vidas. Assim como também precisamos de Deus, amparados pela nossa fé, para persistirmos em procurar viver uma vida baseada verdadeiramente no amor ao próximo e em harmonia com a Terra e os seres vivos que nela habitam, apesar de todos os contra exemplos que nos são colocados à prova. Porque, meu amigo… sozinhos não dá para aguentarmos essa “barra” não!
      Pelo menos, eu, não consigo! 👀

      Gratidão por sua doce visita!

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About Kenya, uma simples amiga!

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