Gratidão cabe em Qualquer Lugar

✒️ English version follows the Portuguese text!

(PARTE I)

No percurso que vai da minha casa até à Universidade de São Paulo (USP), onde semanalmente, na hora do almoço, encontro-me com queridos amigos para debatermos aspectos da vida humana com o intuito de buscarmos algum entendimento maior sobre a nossa própria condição de existência, seja ela moral, espiritual ou mesmo religiosa, posso mesmo dizer que conheço praticamente todos os pedintes que ficam nos faróis das ruas dos bairros que atravesso. E pelo nome!

Todas as terças-feiras, em alguns dos muitos faróis desta nossa desafiadora cidade de São Paulo, acontecem pequenos encontros que ninguém vê.

O trânsito é apressado, vidros dos carros fechados, olhos atentos ao relógio, ou às infinitas notificações do celular! Todos sempre muito ocupados demais com suas próprias urgências e indiferentes ao seu redor.

Mas, pelo menos, eu, não!

Procuro estar sempre atenta ao meu entorno. Até desacelero o carro propositadamente na intenção de dar com o farol vermelho e, assim, parar um pouquinho para poder ter uma rápida conversa com esses meus amigos de rua.

Não demora muito e lá vem o Sr. Leosmar, um homem de meia idade, pele muito avermelhada e machucada pela constante exposição ao sol, cadeirante, extremamente simpático, espalhafatoso e sempre com um largo e cativante sorriso no rosto! Quando vê meu carro, já logo grita o meu nome, lá de longe, acenando-me entusiasticamente com os dois braços levantados para cima, como quem comemora a vitória do time de futebol preferido, e diz:

– Minha amiga Kenya! Bom diiiiaaaa!!!!

E ele é sempre assim com quem quer que lhe dê alguma atenção, mesmo tendo perdido, recentemente, uma filhinha de apenas três meses, de idade! Este homem, sem emprego, insiste em sorrir. Ainda que seu sorriso seja para esconder uma profunda dor por dentro, ele sorri. Ainda que seu sorriso seja ignorado por muitos que por ali passam, alheios à sua delicada condição de existência, ele sorri.

Nossas conversas são breves, como não poderia deixar de ser, mas o tempo que temos é suficiente para trocarmos opiniões sobre a vida, sobre a fé, sobre a esperança que cada um de nós tem na possibilidade de um mundo melhor para todos. Enfim, uma conversa lúcida e edificante que você decididamente não vê na grande maioria dos políticos por nós eleitos para supostamente cuidarem dos interesses da nossa sociedade, só para citar um exemplo…

Eu ajudo o Seu Leosmar comprando as balas que ele vende, mas eu nunca as levo, de fato, por não poder comer doces. Seu Leosmar acha engraçado, mas entende o meu gesto. Sabe que a minha vontade de ajudá-lo é realmente sincera.

Num destes dias, meu amigo cadeirante disse-me que estava lendo a bíblia e que, do nada, pensou em mim. Resolveu então fazer uma oração a Deus pedindo-lhe bênçãos em minha intenção, imbuído que estava de um profundo sentimento de gratidão por eu auxiliá-lo sempre que me é possível.

Assim, ele me disse:

– Obrigado, minha amiga, por sempre querer me ajudar!

Imagine você!

Uma pessoa na condição de vida tão precária, como a do Seu Leosmar, cadeirante, passando por privações muitas vezes insondáveis para nós, deixando de pensar em si próprio para orar por mim! Senti-me envergonhada por frequentemente reclamar da vida por motivos tolos, sem imaginar que o meu normal é o sonho de muita gente…

Fiquei tocada!

Ele então se despediu com aquele sorrisão leve e descontraído, de sempre, agradeceu-me por mais aquela ajuda do dia e foi vender as suas balas para outros motoristas próximos do meu veículo, já impacientes, só aguardando o sinal verde abrir para imediatamente partirem dali.

Pelo espelho retrovisor do carro, observei o Seu Leosmar indo embora, cantarolando uma música qualquer em sua velha cadeira de rodas que ele conduzia com muita confiança e desenvoltura, desviando-a dos vários buracos e saliências da rua com a categoria de quem aprendeu a lidar com qualquer obstáculo da vida sem nunca se deixar derrubar.

Em respeitoso silêncio, enquanto o observava partir, lembrei-me de sua últimas palavras: “- Obrigado, minha amiga, por sempre querer me ajudar!”

E pensei comigo:

-Ah, Seu Leosmar! Sou eu, quem lhe agradece. E muito!

O sinal abriu.

Sorri e fui embora.

(continua no próximo capítulo…)

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✒️ GRATITUDE FITS ANYWHERE

On the route from my home to the University of São Paulo (USP), where every week, at lunchtime, I meet with dear friends to discuss aspects of human life in search of a deeper understanding of our own condition of existence – whether moral, spiritual, or even religious – I can honestly say that I know almost every beggar who stands at the traffic lights in the neighborhoods I cross. By name!

Every Tuesday, at some of the many traffic lights of our challenging city of São Paulo, small encounters take place that no one sees.

Traffic is hurried, car windows shut, eyes glued to the clock, or to the endless notifications on the phone! Everyone is always far too busy with their own urgencies, indifferent to what surrounds them.

But… at least not me!

I try to always remain attentive to my surroundings. I even slow the car down on purpose, hoping for a red light so I can stop for a while and have a quick chat with these street firends of mine.

It doesn’t take long before Mr. Leosmar arrives. He’s a middle-aged man with reddened skin, bruised from constant sun exposure, in a wheelchair, extremely friendly, flamboyant, and always with a wide and captivating smile on his face! When he sees my car, he immediately shouts my name from afar, waving enthusiastically with both arms raised, as if celebrating a victory for his favorite soccer team. He says:

“My friend Kenya! Good morniiiiiing!!!!”

And he’s always like this with anyone who gives him even the slightest attention – even after recently losing his little daughter, barely three months old. This man, unemployed, insists on smiling. Even if his smile hides a deep pain inside, he smiles. Even if his smile is ignored by many who pass by, oblivious to his delicate condition of existence, he smiles.

Our conversations are brief, as expected, but the time we have is enough for us to exchange thoughts and opinions about life, about faith, about the hope each of us carries in the possibility of a better world for all. In short, a lucid and uplifting conversation – the kind you most definitely don’t see in the vast majority of politicians we elect to supposedly take care of the interests of our society, just to name one example…

I help Mr. Leosmar by buying the candy he sells, though I never actually take it, since I cannot eat sweets. He finds it funny, but he understands my gesture. He knows my wish to help him is truly sincere.

One of these days, my wheelchair-bound friend told me he had been reading the Bible and that, out of the blue, he thought of me. He then decided to sya a prayer to God, asking for blessings on my behalf,moved as he was by a deep feeling of gratitude for my efforts to help him whenever I can.

He then said to me:

“Thank you, my friend, for always wanting to help me!”

Just imagine that!

A person living in such precarious circumstances as Mr. Leosmar, setting aside his own needs to pray for me!

My heart was touched!

He then siad goodbye with that same lighthearted, wide smile of his, thanked me once again for the day’s help, and went off to sell his candies to other drives that were impatiently waiting for the light turn green so they could speed away.

In the car’s rearview mirror, I watched Mr. Leosmar drive away, humming some tune in his old wheelchair, which he masterfully maneuvered, skillfully avoiding various potholes and hills in the street with the confindence of someone who has learned to handle any obstacle in life without ever giving up.

In respectful silence, I recalled his last words as I watched him move farther away:

“Thank you, my friend, for always wanting to help me!”

And I thought to myself:

“Ah, Mr. Leosmar! I am the one who should thank you. Very much so!”

The red light changed to green.

I smiled and drove away.

_________________________    THE END    _____________________________

4 respostas para ‘Gratidão cabe em Qualquer Lugar

  1. Gratidão cabe em qualquer lugar.

    O seu texto é forte, leve, acolhedor e empático. Mexe com o leitor e leva à reflexão sobre a vida.

    Aproveito a oportunidade para convidá-la a ler alguns textos de um principiante que ficaria feliz em ouvir a sua opinião. Dê uma passada no mushkila.wixsite.com

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About Kenya, uma simples amiga!

Mulher, cientista, quase espírita e sonhadora, muito sonhadora...