(PARTE II)
Continuação do texto anterior…
Mais recentemente, e desta vez bem mais próximo da USP, deparei-me com um grupo de jovens que costumam ficar aglomerados no farol de um determinado cruzamento, perto da universidade, para limparem os para-brisas do carros em troca de algum dinheiro, uma moeda que seja.
A turminha é meio barulhenta e chega mesmo a incomodar os motoristas que passam por aquele semáfaro, jogando água no vidro da frente de seus carros, muitas vezes sem pedir licença, e já passando aquele rodinho encardido para “limpar” os vidros. Na sequência, esses jovens pedem um trocado para dar aquela “ajudinha” no orçamento, mas a maioria dos condutores dos veículos praticamente os ignora.
Confesso que, no começo, eu tinha um baita medo deles. Afinal de contas, assaltos nos faróis da cidade é uma realidade da qual não nos podemos esquecer. E, por mais que se deseje ajudar, infelizmente todo cuidado ainda é pouco!
Mas um bilhetinho gracioso (eu guardo o bilhetinho até hoje!) que recebi do Juliano, um rapaz que vende balas, tocou meu coração:

No caso desta turminha, que hoje já conheço muito bem, eu ajudo de coração aberto. E ainda buzino o meu carro várias vezes, para chamar mesmo a atenção dos demais motoristas parados naquele semáforo! Eles reparam nos meninos correndo até mim com aquele sorrisão típico de jovens que ainda mantém o encanto pela vida, percebem que não há perigo, e também fazem lá as suas contribuições.
Mas essa garotada ajuda muito mais a mim, do que eu propriamente a eles. Sabia ?!
Certo dia eu estava muito chateada com um fato particular ocorrido, mas procurava disfarçar a minha tristeza diante deles. Um dos meninos, porém, percebeu que havia algo de errado comigo, pediu-me para segurar a minha mão e rezou um Pai Nosso de olhos fechados, tão concentrado, que me pareceu que ele estivesse mesmo querendo ser ouvido por Deus!
Ao término da oração, o rapaz me disse:
– Ô tia, eu não sei o que a senhora tem, mas Deus sabe. E vai resolver!
Deus ouviu aquele menino. Tenho certeza, pois saí dali modificada, leve e com um sentimento de gratidão único, dentro do meu coração!
Sempre que posso (infelizmente não é com a frequência na qual eu gostaria…), dou uns trocados para todos os que ficam por lá. Mas tinha um, no meio deles, que era muito arredio e até mesmo assustador, devo dizer…
Ele surgia entre os carros, como quem emerge lentamente de um mar de faróis e ruídos diversos, com o rosto marcado por cicatrizes profundas quererendo contar histórias que ninguém quer ouvir. Olhos avermelhados e embaçados, talvez pelo cansaço, talvez pelo vício.
Eu procurava conversar com todos, mas esse invocado sempre ficava de fora! Como eu não achava justo todo mundo receber atenção, uma palavra amiga, ou até uns trocadinhos, e só ele, que não, eu pedi para os demais meninos procurarem integrá-lo ao grupo, apesar da sua notória agressividade.
Eles não gostaram nadinha da ideia. A “chiadeira” foi geral! Disseram-me toda a sorte de coisas a respeito do rapaz, mas eu impus essa condição para continuar auxiliando a todos. A reclamação continuou por mais algumas semanas, mas acabaram cedendo. Com o tempo, e aos poucos, ele foi se enturmando cada vez mais com o grupo, o que permitiu que eu também me aproximasse dele.
O Gustavo, esse é seu nome, também limpa para-brisas, como muitos, dos demais. Coleciona recusas e buzinas. Mas, pelo menos na janela do meu carro, ele parece encontrar um pouco de mundo.
Eu conversarva com esse rapaz sempre que possível. E, nos breves momentos em que o farol me permitia, aconselhava-o a estudar, a procurar emprego e a sair do mundo das drogas.
Finalmente comecei a ver um leve sorriso esboçando-se naquele rosto tão desacalentado, da vida.
Apesar dos meus insistentes conselhos para sair dali, ele ainda continua no farol.
Certo dia, ao ver meu carro se aproximando, ele correu para a calçada, vasculhar uma sacola toda encardida e amarrotada que se encontrava no chão. Voltou com um pequeno tesouro nas mãos: um bombom Sonho de Valsa, que eu adoro, por sinal!
Fiquei comovida!
O Gustavo me entregou o bombom como quem oferece um pedaço do próprio coração. Ele estava todo envergonhado, quase pedindo desculpas pelo gesto.
Imagine você!
Talvez ele tenha comprado o bombom com o meu próprio dinheiro, que de vez em quando eu lhe dou, mas isto não importa!
Importa que, pelo menos daquela vez, ele não gastou tudo com drogas…
Importa que, por alguns segundos, em meio ao barulho e à indiferença da cidade grande, dois mundos se encontraram.
Embrulhado naquele papel rosa e dourado, havia algo que ninguém mais viu: a prova de que a gratidão, quando nasce, cabe em qualquer lugar, até mesmo dentro de um bombom!
___________________________ FIM _________________________________
Es ist wie immer eine Geschichte die von Herzen kommt. Ich lese zwar nicht viel, aber deine Geschichten faszinieren mich sehr . Ich lasse sie mir übersetzen, da ich leider kein portugiesische kann . Bitte mache weiter und denke vielleicht mal ein Buch zu schreiben.
Liebe Grüße aus Deutschland
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Es ist sehr lieb von Inhen!
Dankeschön von meinem ganzen Herzen! 🙏
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